domingo, 11 de novembro de 2012

O movimento é pendular



Comi pitangas no pé. Vermelhas, doces, perfumadas. Lavadas pela chuva. Não pensava em nada, exceto em quanto é bom ter pitangas no quintal. Então, me lembrei de um amigo recomendando que olhasse bem os pêssegos de sua chácara antes de comer, pois havia bicho nas frutas. Ora, não existem bichos nas frutas comidas, só nas que não foram comidas, não é mesmo?
Por isso, comi sem olhar todas as pitangas suculentas que passaram pela minha visão e meu braço alcançava. Sem pressa, sem culpa, sem medo. E se houve algum bicho nessas frutas, bem, tinha o gosto de pitanga. 

Não é fácil sair de um lugar seguro para um mais descontraído.  E além de tudo, sem passar para o lado descomprometido da vida. O que é fácil é errar a mão. Movimento pendular. A força da mudança é tanta que você descompensa. Queria pular no rio, mas, ao invés, chega na outra margem. O equilíbrio, sempre a parte a mais difícil. E por equilíbrio não quero dizer o fio da navalha. Equilíbrio é não cair depois de pular. E se cair, não se machucar. Porque a dor não é equilíbrio. Nada a ver com merecimento, mas com desequilíbrio. Descontrole.

Eu já pensei que controlava minha vida. Já acreditei que tudo que me ocorria era fruto exclusivo de minhas escolhas. Escolhas de estar acordada pensando, refletindo. Como um jogo de xadrez, enorme, com dúzias de participantes. Mas agora acho que a vida é mais parecida com um balé. Danço uma coreografia combinada antes. Danço, esqueço o passo, volto a dançar, perco o ritmo, erro a entrada, a saída, perco o par. Danço. Invento outro passo.

Já quis ser eficiente. Muito eficiente. Ser boa, excelente, no que quer que fizesse. Agora, faço comer pitangas colhidas na hora, lavadas na chuva, que não davam até o ano passado e hoje colorem a árvore. Comer e deixar os caroços todos jogados lá mesmo. Para nascer um monte de pés de pitangas. Para os pássaros. Para a terra comer também. Porque não tem problema nenhum que alguma coisa se vá por terra.  

Não é de desperdício que falo. É de descontração. Aceitar o erro. O adverso. O inesperado. Parece pobreza, submissão? Mas é juízo. Viver a vida e não tentar manipular. Viver a vida e não tentar ganhar sempre. E ficar bem, assim mesmo. Respirar profundamente, só respirar. Até porque perder é um estado de espírito, não é uma realidade.  Da vida, mesmo, só fica o que cabe na palma da mão. O resto escorre por entre os dedos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Meditação do Lar



Hoje acordei e fiz uma coisa que nunca faço: trabalho doméstico. Não é preconceito, é que ele faz parte das atividades rotineiras e repetitivas, que é aquilo que mais abomino. Se tiver que fazer a mesma coisa constantemente, cada vez faço de um jeito. Mudo o caminho, mudo o rumo, mudo o como. Tenho que fazer diferente, é uma necessidade.

Mas hoje foi curioso. Foi importante. Será que as pessoas que fazem seus trabalhos domésticos, diariamente, terão o sentido de si mesmas como eu tive hoje? Um sentido de cuidado comigo, de reverência pelo meu espaço e por quem eu sou. Será que elas terminarão o dia conscientes da sua importância? Felizes? Ou alegres? Ou em paz?

Foi um tempo que dediquei a mim. Parece até que não porque, ao invés de descansar, trabalhei. Organizei, arrumei, limpei. Olhei para a vida que se acumulava pelos cantos, o resto de vida que deixei de lado, a sombra da vida resignada que esperava sobre os armários, atrás da porta. Contatei o meu lado B, uma coisa que nem existe mais. Tirei o pó. E havia pó. Havia cinza do que queimou até o fim, do que perdeu a cor. Os olhos secos, a garganta seca, a pele seca.

Precisei de coragem. E também de um novo fôlego. Novo, sim, pois o passado é uma coisa que gruda, repete, ecoa. Para respirar um novo ar no velho baú há que saber o que veio procurar. Eu procurava renovação. Fazer de um copo, um vaso. De uma caixa, um brinquedo. De um fantasma, uma fantasia. Agora, no dia da ressurreição. Hoje, que é o dia de voltar a ser feliz.

A felicidade até parece mar, vem e vai. Quando vem, passa transbordante e cristalina. Quando vai, carrega tudo de rebordão. Faz lembrar uma entidade, uma pessoa instável. Mas certo que não é ela, somos nós. Talvez seja por esse motivo que não gosto de repetição, porque internamente tenho em mim essa instabilidade irrequieta e irresistível ao mesmo tempo de querer o novo, uma paixão, um assomo de energia a cada passo que dou. Eu dou e tomo.

No dia da limpeza, há que encarar o sujo, pôr a mão no repugnante, consertar os erros. Mas erros não se consertam, o que se faz de novo é uma outra coisa. No melhor dos casos, dos erros fazemos aprender. Se e só. Bem, dá para fazer doce de leite de leite que talhou. Nem tudo é assim tão duro e dolorido. 

Limpar também me tirou do estado insistentemente mental. A atenção focada naquilo que se faz é uma espécie de meditação. O resto do mundo deixa de existir. Não tem fome, não tem sono, não tem sede. Não tem mais ninguém. Existe apenas sua atenção despercebida dela mesma fixada no afazer. Daqui para lá, de lá para cá, o que não serve, para fora, o que serve, para uso.  Não chega a refletir. É apenas um ser.

Por que procuro diariamente, cotidianamente, significados, eu não sei. Por que o tempo que passa a toa a toa não é algo aceitável? Por que preciso tanto de entender e entender e entender? E tendo entendido, relacionar, contar, expor? Por que, como uma criança, fico perguntando e perguntando sem parar o por quê? A vida me é mais que uma existência, um sentido. Um sentido intenso como um sonho interrompido. Como acordar à noite sem saber de que lado está na cama.

Mas afinal, não é o tempo que passa, é a vida. A vida passa, e passa como um trem desgovernado nos trilhos ou como um avião seguro no ar? A vida passa ou passamos por ela? Dizemos olá, sem tempo de perguntar como está. E se perguntamos, não ficamos para ouvir a resposta. Que tempo é esse que não temos? O que fazemos dele? Eu sei que a vida é para ser vivida, felizmente.

O que você está fazendo da sua vida se não tem tempo para ser feliz? Se não tem tempo para contar uma história para uma criança, de fazer o bolo que você mais gosta, de ler uma poesia, de olhar para objetos não identificados que passam pelo céu da sua casa? Se você só tem tempo para trabalhar, que esse trabalho ao menos o faça feliz; se não fizer feliz, que se faça alegre, mas se nada disso fizer sentido, que pelo menos o deixe em paz.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

triste



Triste. Pode ser apenas um pouco menos de vitalidade. Pode ser cansaço. Menos serotonina talvez. Pode ser que seja tarde, ou cedo demais. O céu azul não salvou, não salvou o amanhecer fresquinho. Faltou pisar forte o chão, levantar a cabeça um pouco mais, olhar para frente, um horizonte possível. Mas, enfim, triste.

Um momento há que se olhar para o ombro esquerdo e conversar com a morte. É importante? Muito importante? Tem valor? Qual valor? E engolir a saliva que se empoça na boca, a garganta seca. Mesmo no caminho certo às vezes a gente erra. Mesmo errando, está certo. Então, para que entender? Entender o quê? 

A dor é uma forma de encarnar, fincar o pé no chão, enraizar. Mas não é um fim. A dor é superficial, fica na pele, na retina, na sola do pé. Não é uma direção, sequer é um recado, um símbolo. A dor é uma forma de saber que se está vivo, quando tudo o mais falhou. E todas as vozes que celebram a vida, elevam o tom e sobrepõem aos tímpanos. A dor é não ouvir o tocar dos tambores.

A tristeza é uma dor diferente. Não toca, não dispara o coração, não fere. É invisível e dura. Muda. É uma fotografia amarelecida, esmaecida, papel. Uma flor que saltou da sacada. Um pano esquecido no varal, a ventania chegando, sozinho. A parte da parede que o reboco caiu. A mão que diz adeus. Um olhar que secou na lágrima.

O sol brilha, o vento passa, o rio carrega transparente a folha que caiu. As vacas pastam, os pássaros tecem seus ninhos, o mundo gira, entretido. O sangue irriga a pele, os poros abertos trocando o ar, e o som que circula. Tudo fluindo no seu tempo. Todo o tempo escorrendo pelos vãos dos dedos como a água que molha o rosto depois de suar. 

E a beleza que deixou de haver, como uma palavra que deixou de ser ouvida, como reconhecer alguém sem se lembrar do nome. Não é importante, a tristeza não é importante. Nada tem importância num dia triste. Para que buscar tanto os significados? Se num dia, nesse dia, hoje, nada faz diferença.

Todas as doenças trazem em si o antídoto. Todos os remédios, um veneno pequeno. Todos os pecados, a redenção. Mas a tristeza não. A tristeza não tem fim. Não tem par. É um oco. Um tronco sem coração. Um coração sem força até para dizer: ai.

Na tristeza a morte se regala. A morte se prolonga. Gerúndio indefinido da falta de gozo. A respiração contida, retesado o músculo, o pescoço em riste. Não. Não deveria mais haver lugar no mundo para a tristeza que se assoma por cansaço, por ter deixado que o barco corresse sem âncora o canal de areia. Não. Não poderia ser permitido que a morte venha tomar o fôlego dos vivos em pleno dia de sol. 

Triste, triste. Não é por você ter ido. É por eu ter ficado. Vou lavar a alma na cachoeira fria dos propósitos revisitados. Vou beber a água que cai aquecida e salgada porque é do corpo perceber as diferenças, mesmo quando elas não existem mais. Vou dormir um pouco, um minuto apenas, um silêncio no escuro, quieto, antes de abrir novamente as cortinas para a minha próxima dança.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Declaração de propósito diária



Hoje sou um ser completo com deus. Entrego minha mente para que possa me mostrar o que devo fazer, o caminho que devo tomar, a melhor forma de cumprir minha missão. Meus princípios, meus objetivos.  Minha vida. 

Hoje, fechando os olhos que vêem só o que querem ver, olho para minha vida interior, para a vida completa, uma. Vejo sem temer, a alegria ocupando todos os lugares vazios. Hoje, me despindo de quem sou para as pessoas, posso ser quem realmente sou em essência. Abro mão de ser alguém com sentidos limitados, com significados restritos a uma experiência fugaz, para ser e expressar uma verdade maior, plena.

Hoje, entrego minha vontade ao espírito que está além do aqui e do agora, para que possa me manifestar fazendo coro com seu som despojado e desprendido. Assim, tomada pela liberdade inesperada de ser totalmente, alegremente, realizo o que está em mim realizar, enceno o meu papel único, singular, protagonizando na vida a vida que há no universo.

Hoje, meu trabalho é uma mão estendida para aceitar. Minha vida é um ouvido atento. E minhas pernas são as ações que vou fazendo à medida que ouço e aceito. E ainda assim, longe de ser uma marionete em que ocultas mãos traçam um teatro, incorporo esse ser divino que brinca com os dedos na frente de uma luz, projetando a sombra numa parede branca. Eu sou o ser, a luz, as mãos e a sombra, personagem de mim mesmo.

Hoje, reconhecendo a beleza que há nas pessoas, vivo plenamente. Reconhecendo a alegria dos gestos, alegro-me livremente. Uma liberdade que me faz amar involuntariamente, que me traz paz e confiança.

Hoje, abro as portas do coração para que entre o amor que se projeta. Para que a vida antes apenas sonhada escorra como um rio, inundando o caminho de todo aquele que se aventura  por trilhar o desapego, a romper com o horizonte do possível. Docemente, faço-me instrumento de sua obra, a mim e a tudo que eu faça. Para que minha vontade seja sua vontade, e que produza o bem por onde passe. Todo sonho, uma realidade, e toda realidade um sonho.

domingo, 14 de outubro de 2012

Metamorfose



Olhou para o lado e se viu novamente sozinha. Sim, por um breve instante em sua vida acreditara que de sua nave espacial havia saído mais gente nessa sua aventura, mas se enganara. Falavam sua língua, aparentemente, e era tudo que os unia. Palavras. A pele, no entanto, era outra. Era outra a estrutura óssea. Eram outros os motivos, era tudo outro.

Palavras deixam sempre rastros fáceis de se encontrar. E rastros contam sua história. Qual era a sua? Sabia apenas que um dia despencara numa terra estranha, longe de tudo conhecido, longe de todos os conhecidos. Não reconhecia nada nem ninguém. Não ouvia nada que tivesse significado, nem falava alguma coisa que alguém mais entendesse. Cruzavam os olhares como se fossem de outro mundo.

Um belo dia, depois de tanto tempo, quando já se habituara à falta de assunto geral e se entendeu com os silêncios barulhentos que a rondava, de repente, deparou com palavras inteligíveis, frases inteiras faziam sentido. O mundo estava mudando. As pessoas pareciam mudar, ou era ela?

Sim. Ela mudou de roupa muitas vezes. Trocou de penteado, trocou de lado do rio. Experimentou o quente e o frio, o novo e o velho. Foi a pé para longe, pegou taxi para o perto. As nuvens lhe atravessaram a alma, lavando com névoa o que era cinza no tempo de sua chegada. E ela pode ouvir rasgar o sorriso às suas costas. Era a alegria que voltava, a confiança, a certeza. Ela mesma nem imaginava que existiam, nem queria mais que existisse, porque lhe afligia procurar por uma lenda, um mistério, um engano.

Tirou o pó de todos os móveis, arrumou tudo, se preparou para o jantar e fez seu melhor prato. Foi uma festa. Irmãos que se reencontram depois de adultos. Onde você estava esse tempo todo? Mistérios, portas abertas, garfos pousados sobre os pratos enquanto tilintavam as línguas inesperadamente decifradas. 

Então, fez aquilo. O gesto. O sopro da alma no movimento das mãos. O olhar acompanhando de perto. O gesto como uma leve insistência do vento balançando a folha, quase insignificante, quase imperceptível. Tocou de leve a pele que não era a sua. Macia, quase doce. Macia mas firme, tensa. A pele que não era sua respondeu ao toque como se fosse seu. Deixou-se tocar, disponível.

Haveria algo mais? Acordaria? Sonhava? Não soube. Durante aquele toque, o mundo acabou. Era o ano do fim. No que andara acreditando que tanto lhe assustara agora apenas um gesto? O seu. O seu desconserto, um desespero antigo, remoto, muito conhecido, retomou o fôlego. A surpresa de haver tocado de forma tão natural e espontânea, impensadamente, tocado o outro que estava em festa, transpondo a linha do tempo, rompendo a luz, a sombra, a emoção. Corrompendo o paraíso. Onde aprendera a ser assim, natural?

Era tarde. Tudo o mais precipitou violentamente para baixo. O que faria por si? Como se salvaria? Arruinara tudo? Sem respostas, até mesmo para aquelas mais corriqueiras, sem se entender ao certo, julgando-se e forjando não perceber, foi mergulhando ensimesmada, enrolando-se, mal disfarçada. 

Tirou a mesa, agradeceu a presença de todos, fechou a porta e foi para a cama, sozinha. Fechou os olhos, fingiu dormir. Silêncio. No escuro que se fez prolongado, olhou para si mesma querendo o nome. O que era? Como se chamava? Ela não sabia mais. Súbito, mas tarde demais, percebeu que não tinha mais palavras. Elas haviam se perdido desconectadas diante do que sentia. E sentia o quê?  Estava estranha. Voando, sem pisar o chão firme. Um frio na barriga. Um desconforto que provocava risos nervosos.

Quem ela pensava de si mesma não olhou para trás. Seguiu em frente como sempre fizera, assim, só. Mas o que era de fato, uma pessoa inexplicavelmente ingênua e sôfrega, mal respirando para não mover demais o abdômen, invisível, se virou para outra direção. Já não tinha mais o bilhete para o trem. Já não tinha mais passagem para o voo. Perdera ou fora deixada, não importa. Perdeu a validade. No vão dos trilhos, ficou olhando o tempo passar um pouco antes de tomar o ar e corrigir o arco, a flecha de seu destino novamente empunhada.

A mão, ali, flagrante de seu impulso, lhe expunha. Não estava só nem estava longe de casa. Foi fácil acreditar na fantasia esse tempo todo. Borboleta acordando, as asas amassadas, coloridas, no entanto. Ela nem percebeu seu peso mais leve, nem se viu na transparência do hálito que soprava o vidro da janela. Escreveu seu nome no embaçado, escreveu, repetiu, repetiu para não se perder: quem era ela, quem era ela. Abrupta mas agora também pausada. No instante de sua descoberta, perdida. A mão. 

Beijou a mão vergonhosamente arreganhada. Conduziu-a ao peito, a respiração presa, prevendo o que faria em seguida. E assim mesmo, na rua, enfiou-se no decote descuidado, por dentro da roupa apalpando, morna, suada, o seio pedinte. O grito de horror e despudor, desmascarada no carnaval chuvoso. O seu velho mundo com medo de quem era agora. E ela era um ela. Ela demasiado ela. Ela demasiado à beira de si mesma. Desfolhada, florida, florada, o mel escorrendo feminino. Ela.

 O mundo que criara cuidadosamente arrumado estava por um fio. E agora? As perguntas diminuindo, as respostas faltando ainda e, no entanto, mais certa. Ela diante do desejo. Não podia mais fugir, não podia mais fingir que não havia. Era desejo. Agora, ela queria, queria muito. Mal sufocava um grito de sim. Tirou da bolsa um espelhinho. Arrumou o baton, as sobrancelhas, nervosa, tentou sorrir. Não conseguiu. Sua felicidade escorrendo por dentro, como nunca antes. Uma dor na virilha, alegre e fria. Suava. Queria. A pele.