Eu sei o que é ser um anjo caído. Aquele que foi expulso do paraíso. Aquele que tropeçou na própria asa e, ao invés de voar, foi ao fundo, caindo, caindo, sem ter fim. Sei o que é ter experimentado a alegria do infinito e depois se exilar para um quarto escuro.
Mas não sou anjo, bem sei. Sou apenas uma tentativa de metáfora. Será que deus faz poemas com as palavras que inventou? Talvez eu quisesse ser um poema divino e fiquei no meio da frase. No meio do caminho.
Agora, na companhia apenas do vento, vou tentando me reerguer. Vou andando mesmo, já que não me sobraram asas. Ontem colhia frutos do pomar mais doce que havia e hoje, hoje morro de pena de mim de não ter sabido resistir ao fruto proibido.
Não soube resistir à minha natureza dura e viril como uma flecha seguindo seu rumo em arco. Faço curvas como se fosse macia, mas os olhos fixos num horizonte distante. Sei caminhar e sei ficar quieta, só não sei a hora de um e de outro. E para tudo tem hora. Tem o tempo certo e o tempo errado.
Olho pela janela nesta noite que não acaba mais. Lá fora o barulho do vento pelas copas das árvores ou algum ruído pelas folhas secas do chão vão me atormentando como se algo fosse acontecer que não me fará bem. Espero o baque mas não me preparo. Não sei me preparar para sofrer.
Penso que meu gato, sozinho lá fora, pode estar em apuros. Então, como se adivinhassem meu pensamento, os cães latem. Se só eu caí essa noite, então, talvez o gato esteja apenas caçando como todos os outros. E os cães estejam apenas latindo, que é o que sabem fazer.
Minha dor eu a transformo em palavras para que não rolem pelo meu rosto em forma de lágrimas. Não quero emocionar mais do que já me emociono, exagerada. A dor de haver céu para voar e eu sem asas. Eu, que já vivi de bolhas de sabão, agora tenho pedras no bolso, mas não vou me afundar no tamisa.
Sinto todas as células do meu corpo como se elas repentinamente tivessem encolhido e pesado. Só minhas pálpebras não se rendem ao peso da hora e não me dão descanso. Ao invés, me fazem cismar sozinha como alguém que perdeu o trem e ficou na plataforma vazia. Vazia e silenciosa.
Vou sentir falta do paraíso, claro. Quem se acostumou com néctar demora para aceitar mingau. Se bem que há daqueles mingaus feitos com tal amor que abraça e aconchega sem estar perto. Não é deste que falo. Falo daquele que é fácil de engolir, mas não tem gosto de nada nem tem forma de nada. Apenas um amanhecer sem sol. Apenas a vez do outro ganhar e você pagar.
Agora que o sono me vence aos poucos, me derruba ainda mais, vou deixar que a gravidade faça seu papel sem resistência. Vou horizontalizar, eu que perdi o horizonte vou me fazer de fresta de luz. E assim ficar, um pouco longe, um pouco sem sentir para me proteger. Vou fazer de conta que não é comigo e vou abrir a janela. Mas amanhã, agora vou somente me deixar vencer pelo cansaço. Vou me deixar sozinha.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Quando penso nas relações
Quando penso nas relações entre as pessoas, minha impressão é de que tudo que move os relacionamentos, sejam quais forem os motivos, é o poder, muito pouco a compreensão, muito pouco a cooperação. As relações se fazem por laços de poder. Quem pode mais. Mandar sim, pedir jamais, porque pedir é expor sua fragilidade.
Fui muito controladora outrora. Hoje delego o que posso. Pensava que não podia ser frágil, sensível, não podia mostrar meus defeitos. E então era assim, no recôndito da minha vida escondida, imaginada, eu era herói, forte e destemida. Para fora do meu casulo, eu era invisível, encolhida, tímida. Detestava minha timidez como se fosse um defeito. Então, tinha tantos amigos e divertidos que nem sei dizer quem era eu.
Eu já quis ser perfeita. Não admitia errar duas vezes a mesma coisa. Tentava ter sob controle todas minhas emoções. Em vão. Elas simplesmente me dominavam e me submetiam. Quando pensava que a situação estava controlada, estava lá fazendo papel de besta. É sempre assim. Você tenta desenhar tanto sua imagem que acaba vítima de si mesmo. Marionete de si mesmo.
Fui assim montando uma auto-imagem a tal ponto desencaixada que um dia me desconheci. Me perdi de mim. Olhei no espelho e não sabia quem era aquela figura que me olhava firme e desconcertante. Deprimi. Mergulhei tão fundo que cheguei a perder o ar. E da relação de poder que me movia, fui ficar do lado dos desempoderados. Eu nunca tinha me identificado com a vítima e lá estava eu, deprimida, sem forças, sem vontade de viver ou de morrer. Sem.
Não foi fácil aceitar o que passava. Nem foi fácil tomar uma decisão diante de tanta falta de convicção. Mas parece que estar vivo tem um fio de ouro invisível que nos faz acordar mesmo quando estamos morrendo de falta de vontade e por ali, como um tubo de glicose no sangue, vai brotando sem ser percebido um certo ânimo ou reação até conseguir que um braço ou uma perna responda e se mova.
Eu quero relações iguais. De iguais para iguais. Onde as pessoas possam dizer sem medo o que sentem sem se sentirem ridículas. Que nunca pensassem que o riso que provocam seja motivo para se sentirem palhaças. O riso é o primeiro passo para a soltura, para a espontaneidade. É o primeiro traço de que as coisas estão soltas, simples. O simples é tão leve.
Há alguns anos me mudei para uma cidade pequena em busca de uma vida mais simples. Quando me perguntaram o que era uma vida simples, não soube explicar. Hoje sem nem pensar qualifiquei o simples: leve. Leve como a nuvem que passa, o vento que passa, o rio que passa. Leve como a vida que não precisa doer, que não precisa pressionar, não precisa mandar.
E a vida? Talvez não seja mais que um modo de aprender a aceitar com firmeza e não com resignação as coisas, os fatos, as pessoas que passam por nossa vida. A trama do tecido que interlaça tantos nós e ainda assim é fino e delicado. Macio. Por que é tão difícil a vida em comum? Seja ela no trabalho ou em casa. A vida que se passa em conjunto, junto, íntimo. A intimidade é desconcertante. Ela parece sempre abrir uma cortina para o palco de uma guerra. E eu queria tanto a paz. A paz de saber que faço o melhor. Que tiro o melhor de mim. A paz de saber que o dia que passa é a vida que se ganha.
Sei que meu tom é de insatisfação. Mesmo assim, agradeço. Agradeço ter vivido até aqui para poder aprender com a beleza da natureza, das montanhas, dos riachos que correm seguros e gelados, aprender que se há beleza para ser vista é porque para ela fomos criados e, como ela, assim somos. Nada devendo a nenhuma cachoeira ou regato. Leves, em paz e belos.
Fui muito controladora outrora. Hoje delego o que posso. Pensava que não podia ser frágil, sensível, não podia mostrar meus defeitos. E então era assim, no recôndito da minha vida escondida, imaginada, eu era herói, forte e destemida. Para fora do meu casulo, eu era invisível, encolhida, tímida. Detestava minha timidez como se fosse um defeito. Então, tinha tantos amigos e divertidos que nem sei dizer quem era eu.
Eu já quis ser perfeita. Não admitia errar duas vezes a mesma coisa. Tentava ter sob controle todas minhas emoções. Em vão. Elas simplesmente me dominavam e me submetiam. Quando pensava que a situação estava controlada, estava lá fazendo papel de besta. É sempre assim. Você tenta desenhar tanto sua imagem que acaba vítima de si mesmo. Marionete de si mesmo.
Fui assim montando uma auto-imagem a tal ponto desencaixada que um dia me desconheci. Me perdi de mim. Olhei no espelho e não sabia quem era aquela figura que me olhava firme e desconcertante. Deprimi. Mergulhei tão fundo que cheguei a perder o ar. E da relação de poder que me movia, fui ficar do lado dos desempoderados. Eu nunca tinha me identificado com a vítima e lá estava eu, deprimida, sem forças, sem vontade de viver ou de morrer. Sem.
Não foi fácil aceitar o que passava. Nem foi fácil tomar uma decisão diante de tanta falta de convicção. Mas parece que estar vivo tem um fio de ouro invisível que nos faz acordar mesmo quando estamos morrendo de falta de vontade e por ali, como um tubo de glicose no sangue, vai brotando sem ser percebido um certo ânimo ou reação até conseguir que um braço ou uma perna responda e se mova.
Eu quero relações iguais. De iguais para iguais. Onde as pessoas possam dizer sem medo o que sentem sem se sentirem ridículas. Que nunca pensassem que o riso que provocam seja motivo para se sentirem palhaças. O riso é o primeiro passo para a soltura, para a espontaneidade. É o primeiro traço de que as coisas estão soltas, simples. O simples é tão leve.
Há alguns anos me mudei para uma cidade pequena em busca de uma vida mais simples. Quando me perguntaram o que era uma vida simples, não soube explicar. Hoje sem nem pensar qualifiquei o simples: leve. Leve como a nuvem que passa, o vento que passa, o rio que passa. Leve como a vida que não precisa doer, que não precisa pressionar, não precisa mandar.
E a vida? Talvez não seja mais que um modo de aprender a aceitar com firmeza e não com resignação as coisas, os fatos, as pessoas que passam por nossa vida. A trama do tecido que interlaça tantos nós e ainda assim é fino e delicado. Macio. Por que é tão difícil a vida em comum? Seja ela no trabalho ou em casa. A vida que se passa em conjunto, junto, íntimo. A intimidade é desconcertante. Ela parece sempre abrir uma cortina para o palco de uma guerra. E eu queria tanto a paz. A paz de saber que faço o melhor. Que tiro o melhor de mim. A paz de saber que o dia que passa é a vida que se ganha.
Sei que meu tom é de insatisfação. Mesmo assim, agradeço. Agradeço ter vivido até aqui para poder aprender com a beleza da natureza, das montanhas, dos riachos que correm seguros e gelados, aprender que se há beleza para ser vista é porque para ela fomos criados e, como ela, assim somos. Nada devendo a nenhuma cachoeira ou regato. Leves, em paz e belos.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Já amei muitas pessoas
Já amei muitas pessoas. Muitas delas ainda amo, outras tiveram data certa e passaram. Tem gente que não lembro o nome. Outras lembro do perfume, da música, do jeito de olhar, do sorriso, do brilho ou da tristeza. Lembro de como foi passar pela minha vida, ou da minha na delas. Lembro como se fosse ontem, como se fosse agora há pouco. A memória é uma sensação. Lembrar é como viver de novo. E é novo de fato, porque o que se vive uma vez é uma coisa, mas viver na lembrança é outra vida. Tudo pode ser melhor ou pior. Tudo pode ser recontado diferente, mais lindo ou mais feio.
Eu prefiro lembrar o que é lindo. Do que me traz um sorriso espontâneo e instantâneo no rosto e nos olhos. O cheiro que remete a uma emoção, a foto que recorda uma ação, a música que lembra uma atitude. Tantas coisas que já fiz e deixei de fazer. Tantas pessoas com quem compartilhei emoções.
Acho que estou nostálgica. Deve ser a época do ano. Aniversários, meio do ano, a vida que passa pelo fio do horizonte. Consigo ver o sol se pôr em mares que já fui, em montanhas que já passei e na fronte de quem fica por mais que o tempo passe.
Gosto da vida que vivo hoje, sem detrimento do que já vivi. Já me arrependi do que não fiz e me critiquei do que fiz por fazer. Mas do que fiz porque acreditei, errado ou não, não me arrependo. Não me arrependo das dores que causei em mim, em outrem, daquilo que não tinha consciência. Já quis ser perfeita, já quis não errar nunca. Mas hoje não. Hoje aceito o que sou e fui. Aceito meus enganos, desenganos, desencontros. Podia ter chegado mais cedo, podia ter ido embora. Podia ter esperado mais ou podia ter esquecido. Mas não fiz. Quem eu era agia assim.
Tudo que fiz ou deixei de fazer me fizeram quem sou hoje. E quem sou me alegra, me deixa feliz só porque sou eu. Eu, que já fui tão triste, que já fui tímida, que já fui inteligente como forma de me disfarçar. Tenho prazer em ser o que sou. Até quando hesito não me irrito como outrora. A vida vale pelo que vivemos e não pelo que queremos, apenas. Vale pelo que sonhamos e não pelo que realizamos. Vale pelo que dá coragem não pelo que dá medo. E tive muito medo tantas vezes. Medo de viver foi meu último medo. Mas passou. Doeu, deixou marcas, mas passou.
Ter medo de viver é pior que ter medo de morrer. Morrer é simples. Viver é complexo. Viver tem decisões, tem ambigüidades, tem acertar ou errar. E dá para errar 99 vezes e acertar apenas 1, assim mesmo viver é melhor que sonhar. Com tudo que pode ser cavar um buraco para fazer um castelo ou para se enterrar.
Amei e amo. Não tem nada que valha mais a pena do que amar sem medo. Sem susto. E eu amei muitas pessoas e amo ainda. A vida vale pelos amores que se vive. No plural ou singular.
Eu prefiro lembrar o que é lindo. Do que me traz um sorriso espontâneo e instantâneo no rosto e nos olhos. O cheiro que remete a uma emoção, a foto que recorda uma ação, a música que lembra uma atitude. Tantas coisas que já fiz e deixei de fazer. Tantas pessoas com quem compartilhei emoções.
Acho que estou nostálgica. Deve ser a época do ano. Aniversários, meio do ano, a vida que passa pelo fio do horizonte. Consigo ver o sol se pôr em mares que já fui, em montanhas que já passei e na fronte de quem fica por mais que o tempo passe.
Gosto da vida que vivo hoje, sem detrimento do que já vivi. Já me arrependi do que não fiz e me critiquei do que fiz por fazer. Mas do que fiz porque acreditei, errado ou não, não me arrependo. Não me arrependo das dores que causei em mim, em outrem, daquilo que não tinha consciência. Já quis ser perfeita, já quis não errar nunca. Mas hoje não. Hoje aceito o que sou e fui. Aceito meus enganos, desenganos, desencontros. Podia ter chegado mais cedo, podia ter ido embora. Podia ter esperado mais ou podia ter esquecido. Mas não fiz. Quem eu era agia assim.
Tudo que fiz ou deixei de fazer me fizeram quem sou hoje. E quem sou me alegra, me deixa feliz só porque sou eu. Eu, que já fui tão triste, que já fui tímida, que já fui inteligente como forma de me disfarçar. Tenho prazer em ser o que sou. Até quando hesito não me irrito como outrora. A vida vale pelo que vivemos e não pelo que queremos, apenas. Vale pelo que sonhamos e não pelo que realizamos. Vale pelo que dá coragem não pelo que dá medo. E tive muito medo tantas vezes. Medo de viver foi meu último medo. Mas passou. Doeu, deixou marcas, mas passou.
Ter medo de viver é pior que ter medo de morrer. Morrer é simples. Viver é complexo. Viver tem decisões, tem ambigüidades, tem acertar ou errar. E dá para errar 99 vezes e acertar apenas 1, assim mesmo viver é melhor que sonhar. Com tudo que pode ser cavar um buraco para fazer um castelo ou para se enterrar.
Amei e amo. Não tem nada que valha mais a pena do que amar sem medo. Sem susto. E eu amei muitas pessoas e amo ainda. A vida vale pelos amores que se vive. No plural ou singular.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Fazia tempo que não tinha tempo para mim
Fazia tempo que não tinha um tempo pra mim. Sem nada para fazer, senão olhar as abelhas sobrevoando as flores das cerejeiras, senão observar os movimentos do gato no parapeito da janela, plácido. Senão ver o bordado verde que as araucárias desenham no céu azul de inverno. Que bom é o inverno de sol aberto, pássaros cantando, vaquinhas pastando. O silêncio de haver vida inteligente na face da terra. Sim, porque não é inteligente o ronco de motores de carros, a paisagem passando intocada pelo pára-brisa. Aliás, não há inteligência em parar brisas. Que bom o vento frio chegando manso, quase imperceptível.
Fazia tempo que não trazia na roupa o pó da estrada seca de terra batida. Agora, novamente, os cogumelos selvagens podem ser caçados quase sem nenhum predador. Quase, porque descobri que formigas gostam bastante dessa iguaria. Serão gourmets? Não entendo de formigas, entre outras coisas, e entendo muito pouco de cogumelos selvagens. O suficiente apenas para ser viciada em caçá-los e prepará-los.
Acho que não cairão mais pinhões a essa altura do inverno. Mas o zunido das abelhas nas flores me dá o sentido da vida que minha vida precisa agora. Um pouco de paz na zoadeira, quebrando folhas secas caídas das árvores com o pisar por mais leve que tente. Outro som que me faz lembrar que estou em casa é a revoada dos colibris disputando espaço com abelhas entre o cor-de-rosa geral. Antes crepitava também uma fogueira que agora só está fumegando um pouco.
Aqui, sem telefones que me façam contato, só com a eletricidade do pensamento, vou recuperando a calma e a mansidão que um dia vim buscar. Meu tempo de volta para mim num sopro. Eu queria saber identificar o canto dos pássaros, só para ficar sabendo, para nada. Já reconheço os bentevis. Também reconheço a batida seca dos pica-paus à procura de alimento. Tem o canto da seriema, sempre acompanhada, parecendo um ferro batendo na bigorna. E o piado dos gaviões. Quanto vale não fazer nada, não ganhar nada, apenas ser a liberdade leve de uma pena que voa.
Por que será que sempre penso que apenas vou conseguir tranqüilidade na vida bucólica do campo? Olhando bezerros pastarem, no entanto, não me iludo que estão apenas engordando. Tucanos lindos comem ovos de pássaros menores. Formigas devoram uma árvore inteira. Talvez seja apenas o silêncio. Ou o espaço amplo e vazio de gentes. Ou a beleza inútil de tudo, a beleza efêmera. O descaso com que uma flor brota, que uma fruta nasce em meio ao mato, e a noite cai sem aviso.
Colocar fogo num fogão a lenha não é tarefa fácil como parece. Encho minha casa de fumaça ainda antes de conseguir meu intento. Os gatos tentam fugir pela janela... depois, no entanto, eles me agradecem o calor que acendo. Tudo volta à calma de antes, embora mais quente agora. O relógio parado da cozinha me avisa uma hora antiga em que meu mundo girava ao contrário. Aproveito para limpar os armários e queimar todas as lembranças que me fizeram mal outrora. Tento retomar o ritmo bom da vida que sonhei.
Sonhar é fácil, difícil é acordar. Mas fiz uma pequena bagunça na cozinha o suficiente para saber que a casa tem gente. Tem vida. E a vida precisa de cuidado.
Fazia tempo que não trazia na roupa o pó da estrada seca de terra batida. Agora, novamente, os cogumelos selvagens podem ser caçados quase sem nenhum predador. Quase, porque descobri que formigas gostam bastante dessa iguaria. Serão gourmets? Não entendo de formigas, entre outras coisas, e entendo muito pouco de cogumelos selvagens. O suficiente apenas para ser viciada em caçá-los e prepará-los.
Acho que não cairão mais pinhões a essa altura do inverno. Mas o zunido das abelhas nas flores me dá o sentido da vida que minha vida precisa agora. Um pouco de paz na zoadeira, quebrando folhas secas caídas das árvores com o pisar por mais leve que tente. Outro som que me faz lembrar que estou em casa é a revoada dos colibris disputando espaço com abelhas entre o cor-de-rosa geral. Antes crepitava também uma fogueira que agora só está fumegando um pouco.
Aqui, sem telefones que me façam contato, só com a eletricidade do pensamento, vou recuperando a calma e a mansidão que um dia vim buscar. Meu tempo de volta para mim num sopro. Eu queria saber identificar o canto dos pássaros, só para ficar sabendo, para nada. Já reconheço os bentevis. Também reconheço a batida seca dos pica-paus à procura de alimento. Tem o canto da seriema, sempre acompanhada, parecendo um ferro batendo na bigorna. E o piado dos gaviões. Quanto vale não fazer nada, não ganhar nada, apenas ser a liberdade leve de uma pena que voa.
Por que será que sempre penso que apenas vou conseguir tranqüilidade na vida bucólica do campo? Olhando bezerros pastarem, no entanto, não me iludo que estão apenas engordando. Tucanos lindos comem ovos de pássaros menores. Formigas devoram uma árvore inteira. Talvez seja apenas o silêncio. Ou o espaço amplo e vazio de gentes. Ou a beleza inútil de tudo, a beleza efêmera. O descaso com que uma flor brota, que uma fruta nasce em meio ao mato, e a noite cai sem aviso.
Colocar fogo num fogão a lenha não é tarefa fácil como parece. Encho minha casa de fumaça ainda antes de conseguir meu intento. Os gatos tentam fugir pela janela... depois, no entanto, eles me agradecem o calor que acendo. Tudo volta à calma de antes, embora mais quente agora. O relógio parado da cozinha me avisa uma hora antiga em que meu mundo girava ao contrário. Aproveito para limpar os armários e queimar todas as lembranças que me fizeram mal outrora. Tento retomar o ritmo bom da vida que sonhei.
Sonhar é fácil, difícil é acordar. Mas fiz uma pequena bagunça na cozinha o suficiente para saber que a casa tem gente. Tem vida. E a vida precisa de cuidado.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Quantos caminhos
Quantos caminhos podemos seguir apenas vivendo... tantos, tantos, uns de pedra, outros de terra, uns tem vista para o mar, outros para a montanha. Quantos passos em linha reta para quantos subindo um morro. E de quantas formas podemos caminhar por esses tantos caminhos. Alguns exigem calçado, outros precisam ser descalços, alguns ainda precisam da ajuda da mão, agarrar num galho do barranco para subir um degrau, ou descer escorregando para não cair. E as trilhas? E os desvios? meu deus...
Olho para o céu e vejo que daqui não posso ver a estrela polar. Para onde seguir? Para onde ir? eu, que já saí de casa há muito tempo, muito tempo na estrada. Fui me procurar, sapatos empoeirados com o pó de todos os lugares por que passei. Deixando no rastro um pouco do pó que trazia antes. E por todos os pontos que fui e deixei, nada me prendeu, nada me fixou. Mas estou aqui agora, olhando o horizonte conhecido, reconhecido, o tempo que deixei de ter. Eu vim em busca do tempo e não tenho mais. Vou me embora. Vou atrás do vento norte, quente.
Balança os meus cabelos um pouco a brisa fria da noite. Esse rio não corre para o mar, não aqui onde começa. Segue para dentro, para o sertão, engrossando o caldo de águas claras que não alimenta, mas sacia. Nessa época do ano ele corre frio, cheio de pedras e espumante. Carrega meu olhar cheio de dúvidas e de ansiedade para dentro das curvas e quedas que serpenteia pelo seu rumo. Sigo sua direção? No final todos os rios seguem para o mar, cedo ou tarde. Um mar grande ou mar pequeno, não importa. Faço mais em ir embora do que ficar a olhar a esmo.
Nada me prende aqui. Nem os pássaros que cantam alegres e voam em vai-e-vem incansável. Nem a renda das copas das árvores desenhando o pôr-do-sol, nem o aceno sincero das pessoas que passam por mim na calçada. Tudo é temporário, passageiro; a vida é um caminho, e não um destino. E assim como me preparo para seguir em frente, abro a janela para a luz e para o frio de fora, para me deixar sentir, inteira.
Vim porque aqui era o paraíso, mas vivi o inferno interminável. Se não acaba, sou eu que acabo com ele. Porque demorei tanto tempo para entender que não precisava viver isso? Eu nunca vou saber, talvez. Mas aprendi que tem pessoas certas e pessoas erradas com quem viver. Pessoas certas incitam, estimulam, instigam. Pessoas erradas deprimem, espremem, usam. Saber escolher passa também por saber não se deixar usar. Eu sei, fui sozinha ao inferno, ninguém me obrigou. O inferno fui eu. Saí de lá fugida, jogando a chave por baixo da porta. Mas meus pés ainda carregam as cinzas em que me transformei por tanto tempo.
O paraíso sou eu. Aonde levar minha paz para voar, lá será meu paraíso. Onde possa comer todas as maçãs que brilharem seu vermelho arriscado sem medo da vergonha por vir. Não há o que temer quando a paz acompanha nossos passos. Meu sonho de tranqüilidade, meu deus, meu sonho de harmonia, de bem-estar, onde me instalo novamente? Tudo que já vivi teve a importância de me fazer crescer. Mas por que quero tanto esquecer que fui ao inferno andando e não saí de lá mesmo quando já ardia a brasa fria do desamor? Por que ainda não me livrei dessa lembrança pesada, que cansa só de pensar, do qual morreria para esquecer? Por que me persegue, eu que nunca vendi minha alma? Como me livrar dessa sombra pegajosa que tem cheiro de mofo e gruda na roupa feito espinho do mato? O que me prende num tempo de espera eterna? Cansei de tentar entender. Agora só vou partir. A vida vale pelos passos que se dá e pelo que o olhar consegue tocar.
Olho para o céu e vejo que daqui não posso ver a estrela polar. Para onde seguir? Para onde ir? eu, que já saí de casa há muito tempo, muito tempo na estrada. Fui me procurar, sapatos empoeirados com o pó de todos os lugares por que passei. Deixando no rastro um pouco do pó que trazia antes. E por todos os pontos que fui e deixei, nada me prendeu, nada me fixou. Mas estou aqui agora, olhando o horizonte conhecido, reconhecido, o tempo que deixei de ter. Eu vim em busca do tempo e não tenho mais. Vou me embora. Vou atrás do vento norte, quente.
Balança os meus cabelos um pouco a brisa fria da noite. Esse rio não corre para o mar, não aqui onde começa. Segue para dentro, para o sertão, engrossando o caldo de águas claras que não alimenta, mas sacia. Nessa época do ano ele corre frio, cheio de pedras e espumante. Carrega meu olhar cheio de dúvidas e de ansiedade para dentro das curvas e quedas que serpenteia pelo seu rumo. Sigo sua direção? No final todos os rios seguem para o mar, cedo ou tarde. Um mar grande ou mar pequeno, não importa. Faço mais em ir embora do que ficar a olhar a esmo.
Nada me prende aqui. Nem os pássaros que cantam alegres e voam em vai-e-vem incansável. Nem a renda das copas das árvores desenhando o pôr-do-sol, nem o aceno sincero das pessoas que passam por mim na calçada. Tudo é temporário, passageiro; a vida é um caminho, e não um destino. E assim como me preparo para seguir em frente, abro a janela para a luz e para o frio de fora, para me deixar sentir, inteira.
Vim porque aqui era o paraíso, mas vivi o inferno interminável. Se não acaba, sou eu que acabo com ele. Porque demorei tanto tempo para entender que não precisava viver isso? Eu nunca vou saber, talvez. Mas aprendi que tem pessoas certas e pessoas erradas com quem viver. Pessoas certas incitam, estimulam, instigam. Pessoas erradas deprimem, espremem, usam. Saber escolher passa também por saber não se deixar usar. Eu sei, fui sozinha ao inferno, ninguém me obrigou. O inferno fui eu. Saí de lá fugida, jogando a chave por baixo da porta. Mas meus pés ainda carregam as cinzas em que me transformei por tanto tempo.
O paraíso sou eu. Aonde levar minha paz para voar, lá será meu paraíso. Onde possa comer todas as maçãs que brilharem seu vermelho arriscado sem medo da vergonha por vir. Não há o que temer quando a paz acompanha nossos passos. Meu sonho de tranqüilidade, meu deus, meu sonho de harmonia, de bem-estar, onde me instalo novamente? Tudo que já vivi teve a importância de me fazer crescer. Mas por que quero tanto esquecer que fui ao inferno andando e não saí de lá mesmo quando já ardia a brasa fria do desamor? Por que ainda não me livrei dessa lembrança pesada, que cansa só de pensar, do qual morreria para esquecer? Por que me persegue, eu que nunca vendi minha alma? Como me livrar dessa sombra pegajosa que tem cheiro de mofo e gruda na roupa feito espinho do mato? O que me prende num tempo de espera eterna? Cansei de tentar entender. Agora só vou partir. A vida vale pelos passos que se dá e pelo que o olhar consegue tocar.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
A vida é um conjunto
A vida é um conjunto de alegrias e tristezas que se revesam e se sucedem. Quisera viver somente as alegrias, o lado claro da vida. Olhar pela janela transparente da confiança, estender a mão para a fruta sempre disponível, sempre ao alcance. Quisera sentir somente o amor, amor que sinto, que me toca. Mas ao dia segue a noite. Bela quando há lua, bela quando não há. Cheia de estrelas, mas nem sempre. O sempre é uma coisa que não existe na vida.
Ainda assim, amo a vida. Amo passar o frio das manhãs geladas de inverno. Elas são límpidas, azuis, bordadas de verde da serra. O frio que aconchega porque é a vida que escolhi. Depois nasce o sol, e ele vai esquentando aos poucos, aos poucos fazendo sombra por onde vou. Não é o sol que faz sombra, sou eu. Sou eu que sou sólida e opaca, seguro um pouco a luz de passar. A gente que não é luz quer sempre carregá-la conosco. Então, fazemos sombra. Quisera não fazer sombra sobre ninguém. Pisar nela com o sol sobre minha cabeça. Mas projeto por onde ando a sombra do peso que meu corpo tem. Que minhas experiências trazem.
Como é complexo viver. Quero luz e faço sombra, quero alegria e trago as dores de outros tempos nos músculos e maxilares travados. Busco a paz, o significado, o abraço quente. E levo também a balbúrdia barulhenta dos desencontros, a incompreensão das falas desconexas, o balançar vesgo dos braços a esmo.
Queria apenas ser uma dentre tantas que sou. Vestir a roupa simples de um dia e ser eu mesma sem enfeites. Falar de amor e ver a reciprocidade do mundo no alô das mãos que acenam. E sorriem. E se dão.
Já consegui juntar muitos significados para minha vida. Ter me achado um dia no lugar da vida que escolhi foi um belo significado. O primeiro dos muitos passos que se faz a caminhada da vida. Mas quanto tempo, meu deus, para dar esse passo. Quanto tempo para entender o que queriam dizer minhas pernas, entender que direção tomavam meus pés, meu olhar desencontrado do resto, olhando para as nuvens, o sonho.
Viver é melhor que sonhar, sem dúvida. No sonho tudo dá certo. Você vai crescer e vai se dar bem. Vai encontrar alguém que te ame como você o ama e vai se dar bem. Vai trabalhar naquilo que gosta e vai se dar bem. Tudo vai dar bem. Magicamente. Lindamente. Mas viver tem surpresas, tem o inesperado. Tem aquilo que nem o sonho te daria: o fascínio e o medo do novo.
O novo é uma regalia para poucos. Que bom poder reconhecer a cada momento a novidade da paisagem. Uma flor que abriu, um galho que caiu, um olhar forte que se sustenta. Isso faz toda a dor antiga e grudada em você pelas solas dos pés parecer que são cócegas. A vida e a complexidade dela. E eu que pensava que melhor para mim era buscar o simples. Onde o simples? Só se for pela janela fechada e transparente que permite ver o lá fora sem se expor. Sem sentir o vento frio. Só se for para não sentir o arrepio que o frio faz na pele, como a alegria faz na pele, como uma boa lembrança faz no couro cabeludo.
Sim, o vai e vem da vida. Não é fácil entender os motivos. Não é fácil buscar paciência sem deixar de pensar que é filho de deus, que é o filho de deus. O escolhido. Sem pensar que o mundo gira em torno de si.
Bom viver com todas as diferenças. Todas as dificuldades. Todas as desavenças. Porque o melhor de tudo é o que se leva dela. O sentido que só sentindo se tem. Que bom que é viver.
Ainda assim, amo a vida. Amo passar o frio das manhãs geladas de inverno. Elas são límpidas, azuis, bordadas de verde da serra. O frio que aconchega porque é a vida que escolhi. Depois nasce o sol, e ele vai esquentando aos poucos, aos poucos fazendo sombra por onde vou. Não é o sol que faz sombra, sou eu. Sou eu que sou sólida e opaca, seguro um pouco a luz de passar. A gente que não é luz quer sempre carregá-la conosco. Então, fazemos sombra. Quisera não fazer sombra sobre ninguém. Pisar nela com o sol sobre minha cabeça. Mas projeto por onde ando a sombra do peso que meu corpo tem. Que minhas experiências trazem.
Como é complexo viver. Quero luz e faço sombra, quero alegria e trago as dores de outros tempos nos músculos e maxilares travados. Busco a paz, o significado, o abraço quente. E levo também a balbúrdia barulhenta dos desencontros, a incompreensão das falas desconexas, o balançar vesgo dos braços a esmo.
Queria apenas ser uma dentre tantas que sou. Vestir a roupa simples de um dia e ser eu mesma sem enfeites. Falar de amor e ver a reciprocidade do mundo no alô das mãos que acenam. E sorriem. E se dão.
Já consegui juntar muitos significados para minha vida. Ter me achado um dia no lugar da vida que escolhi foi um belo significado. O primeiro dos muitos passos que se faz a caminhada da vida. Mas quanto tempo, meu deus, para dar esse passo. Quanto tempo para entender o que queriam dizer minhas pernas, entender que direção tomavam meus pés, meu olhar desencontrado do resto, olhando para as nuvens, o sonho.
Viver é melhor que sonhar, sem dúvida. No sonho tudo dá certo. Você vai crescer e vai se dar bem. Vai encontrar alguém que te ame como você o ama e vai se dar bem. Vai trabalhar naquilo que gosta e vai se dar bem. Tudo vai dar bem. Magicamente. Lindamente. Mas viver tem surpresas, tem o inesperado. Tem aquilo que nem o sonho te daria: o fascínio e o medo do novo.
O novo é uma regalia para poucos. Que bom poder reconhecer a cada momento a novidade da paisagem. Uma flor que abriu, um galho que caiu, um olhar forte que se sustenta. Isso faz toda a dor antiga e grudada em você pelas solas dos pés parecer que são cócegas. A vida e a complexidade dela. E eu que pensava que melhor para mim era buscar o simples. Onde o simples? Só se for pela janela fechada e transparente que permite ver o lá fora sem se expor. Sem sentir o vento frio. Só se for para não sentir o arrepio que o frio faz na pele, como a alegria faz na pele, como uma boa lembrança faz no couro cabeludo.
Sim, o vai e vem da vida. Não é fácil entender os motivos. Não é fácil buscar paciência sem deixar de pensar que é filho de deus, que é o filho de deus. O escolhido. Sem pensar que o mundo gira em torno de si.
Bom viver com todas as diferenças. Todas as dificuldades. Todas as desavenças. Porque o melhor de tudo é o que se leva dela. O sentido que só sentindo se tem. Que bom que é viver.
Sonho e Realidade
Não são só homens que gostam de mulheres dependentes. Mulheres também gostam de homens dependentes. Aliás, as pessoas em geral não gostam de lidar com iguais. Iguais em estatura, em inteligência, iguais em direitos, sensibilidade.
É muito mais simples definir o mundo pelo seu próprio olhar. Julgar, criticar, condenar o outro é tão simples como não mudar. Mudar é um problema. Mudar é muita desorganização, é desestruturação. A vida dessas pessoas é em geral simples como elas resolvem as coisas. Intransigentemente. É porque é. Sim porque sim. Não porque não. O mundo imutável dos que têm medo. Medo de transgredir, de ir além.
É por isso que dói tanto a elas qualquer possibilidade de mudança. Seu pensamento fixo não admite nenhum viés. Tudo é literal. Tudo é como parece ser. Vítimas de seu próprio pensar fixo. Qualquer variação do vento que faça balançar os cabelos é uma ameaça. E diante de negar o que sempre pensou, o que vai morrer consigo sem alteração, preferem negar o mundo. Nada que for diferente do que acreditam pode ser igualmente certo. Nada do que foge do esperado pode ser verdadeiro. A fronteira entre essa simplificação e a anulação da vida é uma porta entreaberta. O sonho, então, é uma projeção banal de uma realidade que se multiplica pelo óbvio. O sonho que a poesia transcende e faz verdadeiro sucumbe ao ângulo reto.
Existe uma distância muito grande entre a justeza de princípios e a dureza de pensamento. Pensamento inflexível é uma incoerência porque é próprio do espírito ser flexível, tanto quanto lhe é próprio ser ético. Não existem estados imutáveis nem na rocha sólida. Estados de permanência plena, em que o olhar não se deixa surpreender, chocar, vibrar. Talvez gurus?
Não acredito no silêncio dos que não respondem para não agredir. Porque o silêncio que não é uma prece é a traição. A traição dos sentidos, traição de si mesmo. Quando eu parar de falar é porque não vale mais a pena. É para poupar energia.
Não, não são iguais os que pensam igual, mas os que valorizam os outros como a si mesmos. De resto, não existem superiores ou inferiores, mas ignorância, obtusidade.
Embora minha desilusão com pessoas que teimam em não ousar sobre si mesmos, ainda acredito em algo que é maior que todas as inflexibilidades, que todas as incongruências, que anula todas as negatividades. Acredito no amor. E pelo amor eu sei que você está entre os que querem seus pares.
É muito mais simples definir o mundo pelo seu próprio olhar. Julgar, criticar, condenar o outro é tão simples como não mudar. Mudar é um problema. Mudar é muita desorganização, é desestruturação. A vida dessas pessoas é em geral simples como elas resolvem as coisas. Intransigentemente. É porque é. Sim porque sim. Não porque não. O mundo imutável dos que têm medo. Medo de transgredir, de ir além.
É por isso que dói tanto a elas qualquer possibilidade de mudança. Seu pensamento fixo não admite nenhum viés. Tudo é literal. Tudo é como parece ser. Vítimas de seu próprio pensar fixo. Qualquer variação do vento que faça balançar os cabelos é uma ameaça. E diante de negar o que sempre pensou, o que vai morrer consigo sem alteração, preferem negar o mundo. Nada que for diferente do que acreditam pode ser igualmente certo. Nada do que foge do esperado pode ser verdadeiro. A fronteira entre essa simplificação e a anulação da vida é uma porta entreaberta. O sonho, então, é uma projeção banal de uma realidade que se multiplica pelo óbvio. O sonho que a poesia transcende e faz verdadeiro sucumbe ao ângulo reto.
Existe uma distância muito grande entre a justeza de princípios e a dureza de pensamento. Pensamento inflexível é uma incoerência porque é próprio do espírito ser flexível, tanto quanto lhe é próprio ser ético. Não existem estados imutáveis nem na rocha sólida. Estados de permanência plena, em que o olhar não se deixa surpreender, chocar, vibrar. Talvez gurus?
Não acredito no silêncio dos que não respondem para não agredir. Porque o silêncio que não é uma prece é a traição. A traição dos sentidos, traição de si mesmo. Quando eu parar de falar é porque não vale mais a pena. É para poupar energia.
Não, não são iguais os que pensam igual, mas os que valorizam os outros como a si mesmos. De resto, não existem superiores ou inferiores, mas ignorância, obtusidade.
Embora minha desilusão com pessoas que teimam em não ousar sobre si mesmos, ainda acredito em algo que é maior que todas as inflexibilidades, que todas as incongruências, que anula todas as negatividades. Acredito no amor. E pelo amor eu sei que você está entre os que querem seus pares.
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