domingo, 22 de abril de 2018

Voar é preciso

Não tem saída, o beco, como não tem outro jeito, o pássaro, senão voar. E se tudo for minha imaginação, prefiro ser o pássaro que se perde no ilimitado céu, do que ser aquele lugar que te aprisiona. Porque um momento amanhece novamente, e, na luz, voltamos a nos vislumbrar como somos: etéreos corpos em corações partidos. Por mais que procure, os pedaços que faltam clamam por seu lugar, nas ruas, nas encruzilhadas, nas esquinas de outras vidas que se foram. 

Prefiro ser o pássaro que parte quando chega o inverno, levando consigo as sementes do calor que viveu. E assim manter-se aquecido quando não restarem senão promessas de uma nova vida. 

No esforço do voo, terei que deixar pra trás tudo ou quase tudo, levando comigo apenas o que for leve, o que marcou a pele, a retina e a língua, o que resistir ao vento forte e as alturas. Levando um pouco do pó talvez, pra me lembrar de que vivi, e do que fez secarem minhas lágrimas, antes da beleza de um por do sol. 

Eu sei que a poesia é inútil. Inútil também é o amor. Assim, entre uma e outro, vou apagando minhas pegadas, vou aprendendo a querer e a voar, porque amor que é amor, não agarra, é livre; não morre, transcende. E se sou como tudo: energia, um fragmento de luz passando pela fresta da janela feito lua cheia, se sou um fio de teia de aranha balançando na brisa esperando alcançar o outro lado da porta, o outro lado de tudo, pra fazer uma ponte, pra ir além, se sou quase invisível que não sei onde estou ao certo, então posso me reinventar a cada vez uma nova pessoa, um novo mapa, uma nova rega sobre as pétalas abertas, delicadas, perfumadas, deixando um rastro de aromas no ar.

É preciso aprender a partir, a partir sem olhar para trás, a aceitar que a vida é o caminho e não um lugar. Entender que crescer é também um pouco solitário, um pouco silencioso, e muito difícil de identificar quando acontece. Crescer é apenas seguir em frente, sem ficar batendo o pé esperando que a vida seja aquilo que desejo e não aquilo que é.

E no azul sem fim do céu, alço o voo que havia planejado antes, muito antes, quando resolvi abandonar a terra firme. E se bem que a terra me prendia e pesava, agora, que o alto é realidade, o frio me invade e estremeço. A pele quer esse vento passando apressado, mas o coração hesita. Sempre ele, sempre ele querendo ficar, querendo tudo, querendo mais. O querer é uma prisão cheia de presentes.

Quando escurece e o dia finda, como todos os pássaros, encontro um pouso tranquilo para descansar. Lá embaixo tudo continua como antes. Os gatos na janela, os cães latindo para qualquer ruído, as pessoas seguindo sua vida nas rotinas que quiseram. Consigo ouvir a música que toca na minha casa, no mesmo lugar. De noite até os macacos ficam quietos. Olho para mim, deitada na noite longa, esperando um milagre, sonhando com o porvir. Coitada de mim: não existe porvir. Enquanto ajeito as asas para me aquecer e equilibrar, sorrio por dentro. Não existe porvir, pequena.


sábado, 21 de abril de 2018

As bruxas estão de volta


As bruxas estão de volta. Agora voando soltas e leves pelas aldeias físicas e virtuais. Isso mostra que as coisas andam mudando para o lado do feminino, embora haja um nítido movimento de reatividade. É que o feminino, diferentemente do masculino, não é contundente, não compete, não entrincheira nem revida. Claro, o verdadeiro feminino. Mas era de se esperar que, depois de tantos séculos de dominação patriarcal, fosse natural uma certa contaminação desse padrão e que mesmo as mulheres assumissem o papel masculino para conseguir certa projeção.

Sempre me intrigou como é que esse padrão masculino era perpetuado se quem educa e passa a ideologia dominante é a mãe, uma mulher. Cadê a bruxa? Como é que ela não via que estava sendo usada para manter o status quo? Então, um dia, ouvi de uma amiga que, certa vez, flagrou o marido passando a mão na empregada e, imediatamente, mandou embora a moça. Fiquei intrigada: por que a moça e não o marido? Independente da reação dela, se aceitou ou não, foi ele que tomou a atitude. Mas a ideologia patriarcal declara que sempre, nessas circunstâncias, a mulher – e sobretudo a mulher solteira – é responsável pelos descalabros do homem macho. Sim, porque macho que é macho não pode perder uma oportunidade de mostrar quem domina.

Comecei a entender. É essa a forma de manter todas as mulheres sob o regime patriarcal: colocando-as umas contra as outras. É verdade que bruxas e núcleos familiares fortemente matriarcais protegem suas mulheres. Mas somente as suas. Qualquer outra que se aproxime é um risco, representa um perigo, é desarmoniosa, desagregadora. E assim, essas mulheres, umas contra as outras, olham-se com desconfiança. Elas vêm roubar seus maridos e filhos. Elas seduzem, articulam, manipulam.

O pior é a figura masculina desse desenho: ou um grande tonto ingênuo, ou um grande palerma, no final e no mesmo, infantilizado, que não sabe ou não pode ou não quer resistir aos encantos sedutores dessas megeras, que em outros tempos também eram chamadas de bruxas. Assim, colocando os homens na posição de vítimas, precisando de proteção que só mulheres conseguem dar, invertendo os papeis, o patriarcado coloca a mulher como salvadora e algoz de si mesma. Ao invés de reconhecer o aprisionamento de um tal papel, ela se vê atacando outra igual.

Não é que o machismo é perpetuado espontaneamente pelas mulheres – embora algumas o façam para obter vantagens, como, aliás, muitas pessoas em geral fazem – mas é o que resulta quando uma mulher põe a culpa em outra pela infantilidade dos homens. Sempre que você souber de um homem casado que se envolveu com outra mulher saberá que a culpa é dela. Claro, ela é solteira, não tem nada a perder e ele, que tem família, compromissos, responsabilidades, não pode resistir a essa tentação.

O que, talvez, as bruxas estejam descobrindo novamente é que sim, elas são tentadoras, sim, são encantadoras e poderosas, podem sim, virar a cabeça de outra pessoa porque dominam os sentidos, porque reinam no oculto, porque sentem além dos axiomas, e pressentem os caminhos que devem seguir para atingir seus objetivos. Mas também, talvez, estejam agora entendendo que não lidam com um tão frágil homem.

Não se trata de uma declaração de guerra. Apenas um reconhecimento de que o inimigo não é outra mulher, mas uma ideologia profundamente arraigada na religião e nos papeis desempenhados em sociedade, perpetuados pela invenção do casamento, do sentimento de propriedade que se estende às pessoas da família e do entorno.

As bruxas talvez deixem de ser queimadas em praça pública – como ainda são hoje em dia – com a formação de novos núcleos familiares, sem a estrutura patriarcal, sem a dependência financeira dos membros (a mulher trabalhar fora é uma falácia financeira), sem propriedades (que foram a contrapartida mais evidente para essas mulheres manterem o status quo).

Eu anseio por um mundo em que Camilles Claudels não sejam trancafiadas em manicômios apenas por manifestarem sua genialidade. E que tantas outras mantidas discretamente anônimas possam brilhar para além de seu papel de mãe. Para além de seu papel protetor e mantenedor. Para além dos limites impostos a todos os cavalos selvagens que foram levados para domesticação, em redondéis cor de rosa. As bruxas voltaram, e que voltem a ser apenas mulheres.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O agora e o sempre


Quanto tempo dura o agora? E quanto do que foi “antes” permanece nesse agora? Como seguir em frente, crescer, ampliar a consciência no que sou hoje sem o peso do que já foi e já fui? Como olhar para frente sem sentir o vento do que passou soprando na nuca, cochichando na orelha? Afinal, o que é ressurgir? Renascer? O que é renovar-se?

Eu consigo andar no mesmo caminho todo dia encontrando algo de novo nele, uma flor que não havia, um pássaro que voa, inesperado, com rabo amarelo e preto, um entardecer vermelho, uma lua escondida nas nuvens, mágica. Eu consigo ver diferente o mesmo livro já lido, consigo entender o que não havia entendido antes. Eu percebo a diferença entre quem já fui e quem sou hoje (penso que melhorei muito). Mas também sei que não mudei tanto. Mudei de casa, de profissão, de cidade para roça. Mudei meu paladar, passei a comer coentro, a gostar de cerveja, cachaça, deixei de comer carne. E ainda assim, continuo sendo a mesma, como um parafuso que gira e gira e vai entrando na madeira, parecendo diminuir.

Se eu tivesse que escolher um tempo que não existe, para mim, esse tempo é o futuro. Será? Quando será? O futuro é como esperar que o leite ferva: quando você vê, já derramou. Se você sair correndo, nunca alcançará. Se não fizer nada, já passou. Nunca chega. Não existe, é apenas uma possibilidade, um alento. É como acreditar em deus.

Mas o passado é algo que não é mais. Também não existe. O que sou é uma constante transformação, como o fogo que come a lenha para ficar tremeluzindo lindo e quente. A vida é um movimento, não um estado. É o vento que passa, o sangue que corre, o coração que vibra. A vida é um ritmo, a batida de um tambor, às vezes forte, às vezes nem tanto.

Se eu quisesse viver o presente, apenas o presente, esse agora que me acorda, me dá sentido, olhando para as pessoas que conheço, conversando com elas, como não me deparar com quem conheci um dia, em outro momento, e sim o que elas são agora? Quem são agora? O que elas mudaram enquanto eu não prestava atenção? O que ficou diferente? Se eu mudo a todo instante, elas também mudam. Mas o que sei eu do que mudou? Quando penso em alguém, penso em quem conheci, alguém que já não é mais.

O meu presente – o agora – é uma mistura de quem sou e o que penso que é o mundo que passou, posto que tudo muda. Você é uma imagem que conheci, e não a pessoa que é agora, porque eu ainda não sei quem você passou a ser. Sempre que aprendo uma coisa, ela já não me serve mais. Quando aprendo a lidar com uma situação, ela já acabou. Quando aprendo a lição de um relacionamento, e estou pronta para seguir em frente, já não estou mais no mesmo trem, vejo pela janela a estação ficando para trás.

Então, se sou também como o rio que passa, sempre outro por baixo da ponte, sempre é outra a ponte que vejo passar. Nada é igual, mas tudo se repete. Quando penso que atingi o mar, eis que estou presa numa curva, carregando tanta bugiganga que parece que fiquei ali, no mesmo tempo, sólida. No entanto, o rio é a curva, é o mar, é a nuvem, e é a queda barulhenta, fumacenta, que alisa as pedras, e não volta jamais. O rio é também a lágrima que escorre, e a boca que se enche de água só de pensar. O instante. O átimo. Aquele momento em que nem sei o que aconteceu ainda. Porque, quando sei, já parou de doer.

No momento em que penso, continuo sentindo, e assim, tudo se amplia, tudo se espraia e fica sem palavras. Mas, de tudo que passa e se move, de tudo que muda ou transcorre, de toda essa vida que se derrama como se corresse fora das veias, no mesmo sem tempo de entender, no ritmo vertiginoso do piscar dos olhos de brahma, eu procuro por um “porque”, por uma razão, eu procuro desesperadamente ter calma para não me perder, para responder à minha insatisfação com um movimento acolhedor, de aceitação e afeto, porque toda insatisfação é um motor de arranque, não é uma lição ou um aprendizado, é apenas uma energia que não pode ser ignorada. E talvez porque, por entre as brumas surreais que há em todo relacionamento, haja quem sabe uma mão estendida me esperando para ser descoberta.

sábado, 17 de março de 2018

Flores roxas como o amor


Olho pela janela, para o meu entorno verde e monótono de montanha, repleto da mesma coisa, árvores e vegetação, e me encanto como sempre pelo diverso e diferente que o dia me mostra. Hoje as árvores de flores roxas estão em evidência no meio dos verdes das copas. E não há macacos dando seu sinal de passagem. Quietude. Perto de mim, apenas o zumbido de abelhas no manjericão florido. O sol momentaneamente escondido atrás de nuvens, densas, de passagem. Tudo passando com o dia.

Minha vida igualmente monótona de montanha, se preparando para o outono, vista da janela para dentro, também pontua silêncios e roxos. Posso escolher se passo ou fico, no entanto, e escolho passar. Passar como o vento que balança as folhas secas até que elas caiam. Passar como o dia, no seu ciclo de claro e escuro, de paz e zumbidos no ouvido. A vida zumbe como abelhas em flores nos dias que sucedem chuvas intensas.

No silêncio tênue que se forma de eu estar olhando a vida pela janela, entendo que nem tudo pode ser como meu desejo intenciona. Que nem mesmo quando me visto inteira dessa intenção, despojando-me de carapaças, armaduras, roupas, segunda pele, estando nua, nem assim alcanço algumas vezes o meu desejo. Parece-me que o braço é curto demais, que me falta tamanho, que meu trem não parou na estação, e fico me vendo chegar e partir sem alcançar.

Mas alcançar o quê? Um abraço, talvez. Um repasso. Nada que signifique vitalidade, mas apenas o efêmero da vida. Aquilo que amanhece e se desvanece porque segue em frente na fugacidade da emoção. O amor, enfim. Porque não há nada mais tênue que o amor. E não há nada mais fugaz que amar. Porque quem ama algo que amanhece, entardece e anoitece para tornar a amanhecer, não ama uma única vez, mas várias. Ou então, fica sozinho no instante seguinte, chorando pelo que já foi, pela aurora que é lua cheia agora.

Amar é deixar ir, é partir sem levar nada. Amar é sonhar sem nunca concretizar ou realizar, pois tudo o mais é um estado de ser, e não ser. E a própria vida é esse suceder de amares, hoje de flores roxas, amanhã amarelas. Às vezes os pássaros cantam, outras grasnam. O deus que eu sou, verde no fim do verão, tornando-se opaco no inverno, mas sendo ainda deus.

Fico melancólica nesses dias em que reconheço minha efemeridade. Eu, que preciso do encantamento para dar o próximo passo, eu que busco – como a mariposa – a luz incessante do sol, e descobrindo ser uma chama de vela, que se apaga com o sopro do vento, o balançar da minha asa. Melancólica pelo meu desapontamento em me ver no escuro, porque o escuro, como o mar alto, é um infinito de possibilidades estonteante e perturbador.

Fico melancólica e pensativa, no hiato do amor, esquecida de que tudo é ciclo, de que tudo vai e volta, insistentemente quando me recuso a ver, mas que me traz oitavas a cima quando consigo perceber a diferença de cada volta. Porque na sucessão dos dias e noites que já vivi, hoje estou mais calma e tranquila – ainda que melancólica – do que jamais estive. Estou mais feliz e reconfortada do que jamais vivi, apenas por me reconhecer sem espelho.

Minha dor de hoje é não ter flores roxas para exultar no meio do verde indistinto de que me visto, invisível, despercebida. Não, eu não precisava ser a árvore mais alta entre tantas araucárias, nem a mais flexível nem a mais exuberante. Eu não precisava aninhar famílias de pássaros nem os alimentar com insetos ou frutos. Não precisava sequer fazer uma sombra para amenizar o calor de quem se aproxima. Eu podia ser somente aquela que você esculpe iniciais ligadas por um coração, como quem eterniza uma emoção. Como quem acredita que emoções perdurem, resistam, persistam. Para além da marca deixada na casca dura.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Quero um relacionamento


Na busca por identificar quais as características que os casais em relacionamentos duradouros e longevos têm, observo a paciência. Não só paciência ao responder ou agir, mas também ao ouvir. Porque, de modo geral, nossos diálogos internos se sobrepõem ao que a realidade se mostra, e muitas vezes já sabemos a resposta antes, já deduzimos os pensamentos que motivaram o outro, o que nos faz impor um ponto de vista (nosso) em detrimento das explicações, justificativas ou, apenas, de outro ponto de vista diferente que o outro tenta nos apresentar.

Isso me faz refletir sobre outra característica: como diferenciar essa imaginação própria – fecunda e cheia de eu sei – da intuição – aquele saber que não tem explicação, decorrência ou causa, mas que é instantâneo – ambas, imaginação e intuição, surreais e suprarracionais. Como identificar quando estamos contando – ou recontando – uma história para nós, entremeada de insegurança, passagens passadas ainda muito à superfície da pele, decorrentes de outras experiências doloridas, semelhantes, e quando uma nova história se apresenta de fato, inesperada e pontualmente, um aprendizado de verdade?

Talvez, antes de tudo, eu tenha que refletir por que haveria de desejar um relacionamento duradouro e longevo para minha vida, já bastante repleta de causos, pequenas histórias magníficas, grandes fracassos insistentes, muitos amores e eu te amos? Por que um relacionamento deve durar no tempo para mim, que tenho que desenvolver paciência – a qual poderia ser uma herança, um presente, um achado – e que não sei separar dos meus dias e noites a imaginação fertilíssima e insondável dos meus sonhos? Por que haveria de querer para minha vida o desafio, mais do que ir dormir e acordar com a mesma pessoa, de viver com ela os dias e as horas e os minutos, nos vazios de me encontrar longe, e nos repletos de entender que me basto para minha vida? Na minha arrogância de pensar que sei do que preciso e quero, e na singeleza dos momentos lindos e simples de não querer mais nada. Por que vou atrás daquilo que não tenho, como se procurasse ouro onde não há lavra?

Quem sabe eu seja ambiciosa, ousada, e precise desesperadamente me superar nos limites mais evidentes, ao menos. Ou essa seja a fase da vida que toda pessoa reflete sobre o que fez até o momento, tentando explicar o que não deu certo e o que deu – às vezes, esse último é o que mais carece de explicações. E embora desconheça efetivamente minhas motivações, anseio por um relacionamento que possa durar além das dificuldades em lidar com diferenças, além das restrições que a vida conjunta impõe à liberdade individual e, sobretudo, à curiosidade premente de querer saber se há vida nesse planeta e de que tipo. Eu, uma astronauta muitas vezes presa nas atmosferas alheias.

Propositadamente não me refiro ao amor. Amor é aquele sentimento que permeia os contatos, às vezes intensamente, às vezes nem tanto. Não. Quero ver os relacionamentos naquilo que não os liga, mas naquilo que faz querer ligar. Porque não é o amor que mantém os relacionamentos. E nem é a maturidade, pois muitos são os encontros da vida toda que começaram no primeiro – para aqueles que souberam levá-los adiante. Também não falo de paixão, aquele arrebatamento que anula regras, contraria contratos, ridiculariza a razão. Pode até ser que a paixão seja uma isca, mas não é o jantar, não é sequer o peixe. O viver compartilhado – talvez não no mesmo teto, mas sintonizado – requer objetividade.

Por fim, mas não menos importante, preciso encarar outra questão: quero um relacionamento, qualquer que seja? Quero casar com o casamento – eu, que não tenho bens para deixar, que não tenho senão incertezas – ou quero alguém em particular? Porque procurar alguém para caber na casa que construí é mais restritivo do que abrir mão da liberdade própria e alheia. No infinito das possibilidades, procurar alguém que caiba nos meus sonhos de relacionamento, naquilo que trago pronto, desenhado no papel marcado pelas tantas vezes que apaguei e corrigi, colorido nas cores dos meus anseios, hoje, essa busca se parece com o procurar uma agulha no palheiro. Ou me contentar com o que está ao alcance do braço, adaptando uma vez mais o projeto.

E, afinal, o que é relacionar-se senão um contínuo adaptar-se ao que se apresenta de novo e velho nos dias que se sucedem? O que é senão um cotidiano encarado com generosidade? Senão a rotina que amanhece sem flor um dia, ou nublado outro, mas que em geral traz um olhar cúmplice no que quer que façamos de certo ou errado? Pode haver emoções fortes e surpreendentes até mesmo quando planejamos com detalhes. E o enfado é mais resultado da falta de vontade do que dos acontecimentos. Isso é viver, e relacionar-se é mais ou menos como viver, só que a dois.




domingo, 4 de março de 2018

Eu te Amo


Eu já disse Eu te amo a diversas pessoas, diversas vezes, algumas repetidamente, outras nem tanto. “Eu sei que vou te amar por toda minha vida” foi um sentimento que permeou todos meus encontros, com todas as pessoas com quem vivi ou compartilhei afeto. Foram pessoas que se sucederam nos meus dias, ou eu nos delas, como se fossem únicas, absolutas, ímpares – e assim, talvez, tivessem sido naquele momento. Não havia falsidade nessa expressão, ao contrário, havia muita sinceridade, havia inclusive o desejo de que isso se realizasse. Antes de ser uma declaração de amor, era uma oração ao universo, para que aquela felicidade momentânea perdurasse ao infinito, até o fim das nossas vidas.

E, embora algumas dessas pessoas não tenham permanecido mais que alguns meses, outras anos indecifráveis (terão sido felizes todos?), a simples lembrança delas hoje mostra sua importância – e que tenham sido importantes por sua dureza, sua tristeza, ou pelo colorido dos dias, não diminui a importância ainda assim – a simples referência de terem passado pelos meus braços, ou por eles se lamentarem por isso, são marcas do que o amor traz, constrói, transforma.

Talvez seja muito romantismo de minha parte acreditar que o amor seja tudo, absolutamente tudo, de que precisa uma pessoa para viver sua vida em paz, feliz, em harmonia, com crescimento (nessa última parte incluo o que não está explicito, mas que promove crescimento: dores, discussões, divergências, tempos diferentes, hormônios, e uma gama de outros sentimentos tais como medo, insegurança, orgulho, vaidade, e que tornam a vida compartilhada tão dinâmica e diversa). Mas mesmo os amigos queridos precisam ouvir Eu te amo de vez em quando. E atualmente até mesmo as relações profissionais carecem dessas declarações e aceitam demonstrações com prazer.

Mas já acreditei piamente que amar fosse um verbo intransitivo, bastando apenas que eu amasse para sentir-me plena, feliz, fluída. Que o amor platônico fosse tão bom e tão significativo que dispensasse declarações faladas ou expressas. De que bastava tão somente a visão do ser amado, observá-lo em seu dia, sua normalidade cotidiana, no seu gesto simples, espontâneo, para que me sentisse um ser especial, amado por deus.

Isso foi há muito tempo. No tempo em que eu não havia experimentado ainda o contato dos lábios que se desejam, do olhar que penetra. No tempo em que eu não sabia o que era sofrer por amor. Em que não entendia ainda o que era esperar em vão por um sinal, qualquer sinal, de reconhecimento. Num tempo anterior de eu descobrir no corpo o que uma presença causava, e de como sua ausência doía. Antes de perceber no peito que amar é um verbo complexo demais para ser conjugado apenas na primeira pessoa.

Hoje sei que não foi em vão nenhum desses Eu te amo que expressei e expresso. Porque entendo ser o amor como é – fogo - precisar de mais dele para ser. O fogo se alimenta do fogo como o amor se sustenta no amor. Não há como viver o amor sem cantá-lo. E não há como ser amor sem o colorido de todas as cores que puder haver. O amor se vive de corpo inteiro, em todos os sentidos, até naqueles surreais como imaginação, como o sonhar.

Além do mais, algumas dessas pessoas apenas passaram pela minha vida para, amorosamente, me permitirem que transpusesse a margem, para que eu saísse de um relacionamento definhado e sem forças, ou para que ambas pudéssemos nos atirar ao desconhecido, em detrimento do medo ou da insegurança que nos oprimia. E, pelo desejo de manter algo que nos libertou, cremos na continuidade de algo que teve o propósito apenas de ser passageiro, de ser uma ponte, de ser uma companhia na estrada das mutações. Às vezes, a presença de alguém na nossa vida pode ser tão somente uma vibração para o próximo passo. Mais nada que isso. E, se é difícil entender, é difícil deixar ir.

Por que não é só a parte do Eu te amo que cria um constrangimento na hora de olhar-se ao espelho e ver-se naquela estranha posição de acreditar mais uma vez nessa emoção. Tem a outra, quase mentirosa, quase apenas sedutora, que é o para sempre. Quanto tempo durou meu último para sempre? Mas sei que isso é possível porque vejo muitas pessoas vivendo nesse gerúndio. E que, sim, para sempre pode ser muito feliz. Eu vejo esses exemplos e deduzo que não é uma imaginação, uma ilusão, um sonho. Um relacionamento pode ser continuamente reconfortante e ao mesmo tempo desafiante, inspirador e terno, pode ser uma noite de dormir de conchinha e outra de espalhado pela sala.

Olhando agora pela janela, para a lua que se depreende atrás das nuvens, ouvindo o vento passando pelas folhas das árvores, no tempo que é só meu, que não preciso dividi-lo com mais ninguém, no infinito das horas que uma vida é, penso em que sono calmo ou luxúria você se encontra enquanto estou acordada. Nesse momento em que reconheço a presença do amor também nos desencontros, como o silêncio faz parte da música, é que entendo que o amor é o tempo que passa.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Comer ou não comer carne?

Não vejo no ato de comer ou não carne uma questão ética. Acredito que essa deva ser uma escolha e decisão de foro íntimo, da consciência individual, como escolhas religiosas ou agnósticas. A meu ver, a questão ética nesse caso está no modo como são tratados os animais para consumo humano: como simples mercadoria. 

Apesar de estarmos no século XXI, ainda promovemos guerras religiosas, envenenamos o solo e a água com agrotóxicos, desmatamos florestas, aceitamos sementes transgênicas e a propriedade industrial da semente, e exploramos animais como se fôssemos os reis da criação, seres não-naturais, beirando a ignorância a respeito de nossa própria natureza animal. Não está no ato de matar para comer o ponto crucial, pois afinal não matamos o vegetal para comer, ou o comemos vivo? Se matar para comer for um problema ético, teremos que passar a comer alimentos sintéticos, tal como fazemos ao nos vestir. Ou devemos apenas comer frutas – talvez os únicos alimentos que não custem a vida de um indivíduo para se tornar alimento; mel, ovos, leite e derivados somente se o tratamento dos animais para essa produção não promover exploração e dor. 

Antes de tudo, devemos retomar uma atitude respeitosa para com a natureza, para com a vida. E, se humanizar for realmente um qualitativo, devemos humanizar nossas relações com o meio, com o outro e conosco mesmos, relações essas totalmente coisificadas pelo atual sistema econômico.

Temos justificado nossas atitudes predadoras com o argumento de alimentar uma população mundial crescente, cuja demanda nutricional exige produção intensa de proteínas. Os mesmos motivos justificaram o uso de pesticidas e agrotóxicos nas lavouras, e a fome permanece. Confinamento e tratamento abusivo de animais, para o abate ou produção de ovos ou leite (abelhas também são exploradas para produção incessante de mel ou própolis), como resposta à demanda por alimentos é mais uma forma que o capitalismo encontrou para ganho de capital. 

Assim, esses empreendedores massificam conceitos alimentares preconizando a necessidade de proteína animal nas dietas, ratificando sua importância na saúde através de modelos de consumo e padrões de comportamento (propaganda que chega a colocar em risco a sociabilidade de um indivíduo que opta por ser vegetariano, embora menos nos dias atuais). E, de repente, pessoas que são obrigados a diminuir o consumo de carne em suas dietas por motivo de saúde se vêem primeiro diante de um abismo (não terá opções) e depois, se conseguiram ultrapassar esses limites externos, se vêem maravilhados por perceber que não só há vida pós-vegetarianismo, como há uma abertura ilimitada para alimentar-se com prazer.

A maior questão ética é o uso das mídias para reforçar a ideia de que a proteína animal é um ícone da boa alimentação. Porque se o consumo da carne – e de resto, toda proteína – se reduzisse ao cume da pirâmide como afirmam os nutricionistas, não haveria a necessidade de produção intensa desse insumo, diminuindo a importância de sua exploração. Não haveria justificativa para tratar animais como coisas. Não precisaríamos dedicar tempo dos nossos filósofos para pensar se animais têm ou não alma, se sofrem ou não, se têm direitos iguais ou relativos. Deixaríamos essa questão para as diversas religiões ficarem debatendo e guerreando para decidir quais as que estão certas. Aliás, é uma outra questão entender porque o vegetarianismo não é proposta pelas religiões que pregam o amor.


Se o homem chegou a desenvolver o córtex cerebral privilegiado de hoje graças à evolução do seu modo de alimentar-se, com certeza pode também desenvolver-se de caçador a um ser em harmonia com a natureza, de predador a autoconsciente, mantendo-se como sujeito de sua trajetória de vida sem necessidade de interferir ou impactar a trajetória de outros seres viventes. Mas talvez para isso precisemos processar uma mudança na forma como vivemos em sociedade, inventar um novo sistema econômico, que seja socialmente justo, ambientalmente sustentável, e bom para todos, inclusive animais.