sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Tudo por interesse


Há dias tento digerir a hipótese de que ninguém faz nada por ninguém, desinteressadamente. Sim, contragosto, tenho que concordar. Sempre há um interesse à frente ou por trás de uma ação. O que faço por você, por exemplo, é para mim puro deleite. Portanto, eu é que ganho.

E no final, o que é que se pode fazer efetivamente de bom para alguém? Nada. Sua vida é sua vida, como você a concebeu ou não, mas sua. Eu não posso nem de longe, nem de perto, nem de dentro ou de fora, interferir no seu caminho. Não ajudo em nada. Nadinha. Nada mesmo.

E meus sonhos? Bem, são meus. A ilusão de que minha vida faz sentido para mais alguém? Inocência. Importância? Sim, importo do ar o prana, que me dá vida mais do que o oxigênio sozinho podia me dar. Uma coisa se perde, no entanto. Outra se ganha. Perco o referencial, um espelho, uma contrapartida que interage comigo e me permite autoconsciência. Ganho em honestidade, em liberdade, e, acima de tudo, leveza.

Já que não tenho que salvar o mundo, nem ninguém, no meu caminho sigo de mãos vazias. Vejo as pedras rolando nas águas dos córregos, mudando a cada momento sem se perturbar. E fico horas olhando, olhando. E tudo é muito lindo, pelo meu descompromisso. O tucano passa voando lindo, seguido de perto por dois outros pássaros menores. Provavelmente ele estava investindo contra o ninho dos outros, mas mesmo assim, acho-o lindo no voo desiquilibrado pelo longo bico.

Não. Definitivamente não posso fazer nada por ninguém. A não ser seguir em frente. Por mim eu faço? Digo que sim, mas digo que não. Não posso fazer nada por mim já que não posso fazer nada por mais ninguém. Seria egoísmo. Inadmissível. Inaceitável. Cortinas se fechariam para mim. Aplausos seriam poupados. Faço por mim tirar-me da cama toda manhã, toda manhã sem exceção, para que a vida me ocorra de olhos abertos.

Certo. Não faço realmente nada por ninguém desinteressadamente. Meu interesse é ver alegria ao meu lado, por isso, se puder e quanto puder, promovo alegria aos que estão ao meu lado. Faço piadas, embora nem sempre divertidas. Faço o que posso. Nada é impossível de bom humor. E bom humor é como fogo, alastra. Com todo interesse do mundo, às vezes, sou dócil e disponível. Tire minha roupa, meus livros eu os dou, preparo comida – por favor, não me peça para lavar a louça – abro a porta, pago a conta. Quando quero estar por perto, estou cem por cento presente. Interesse, puro interesse.

E tenho interesse em geral por pessoas inteligentes, sensíveis, e descuidadas. Interesse total em ficar próxima, muito próxima, de ouvir frases encantadoras, de ver olhares mágicos, de entender o que é difícil explicar, o silêncio. Adoro sorrir sozinha, depois, lembrando coisas engraçadas que pessoas engraçadas disseram para mim ou comigo. Minha vida é repleta desses sorrisos bobos, descontrolados, que vêm à tona sem nenhum aviso. É por isso, simplesmente, que convivo com pessoas quando seria bem mais simples viver sozinha o tempo todo. Posso não fazer a menor diferença para alguém além dos meus gatos e cães, mas as pessoas me encantam quando sequer esperava encontrar companhia. Elas me fazem ressoar uma música, uma canção conhecida, coisa de infância esquecida, adormecida, memória de pele, ou coisa parecida. 

De fato, generalizando, fazer alguma coisa para além dos meus interesses pessoais é quase impossível. Se participo de grupos sociais, faço-o porque pertenço. E se alguém vai decidir por aquilo que me afetará, melhor que seja eu a decidir, ou pensar que decido. Responsabilidade social é, em última análise, cumprir etapas de interesse. Não sei viver sozinha e quero uma redondeza melhor para conviver. Crianças mais felizes, que se divirtam de verdade quando estiverem apenas brincando. Que não aprendam nada mais do que estejam procurando. E que não procurem aprender nada, porque tudo lhe será dado. Crianças que não tenham que se preocupar com comida, porque assim podem ver bola onde não há bola, podem ver pipas quando não houver vento. Crianças, enfim, sendo crianças na infância que é hoje. O meu hoje. Porque quero um mundo melhor para viver. E envelhecer.

domingo, 23 de setembro de 2012

Me desculpe


Me desculpe. Tenho certa incompetência em falar o que realmente importa. O que realmente me importa. Olho para o lado, fico sem jeito, falo do tempo, morro de medo, desconverso. Depois, desato numa conversa sem fim sobre valores humanos, parece que as pessoas deixaram de acreditar na vida, na beleza da vida, na alegria descompromissada e leve que pode ser a vida. Reflito sobre a mudança de rumo, revisões, reposicionamentos, sobre o pensar diferentemente. Às vezes, falto com a verdade. Com a verdade do que precisava dizer, e não digo. Ou não precisava dizer, mas queria. Nada é impossível. Só o desejo é inalcançável e previsível. Sempre por realizar, sempre à frente do momento. O desejo que interrompe o rio, o riso, o curso natural da brisa. Foi um quase. Foi só o risco despontando na superfície para então já escorregar reticente. Queria apenas dizer o que sinto. O mais difícil.

Sinto muito. Sinto tudo impossivelmente ao mesmo tempo agora. Sinto intensamente. Pareço menor do que sou, tal o tamanho do mundo. Criança perdida numa feira de rua atônita não encontrando as pernas da mãe que se descuidou. E de sentir tudo e tanto, perdi-me dentro de mim. Calabouços, cavernas incrustradas de pedras e frio e escuro, labirintos de sentimentos desconexos, mapa sem norte. Todos os caminhos do mundo perfazem minhas veias, minha pele de toque, despencando vertiginosamente como cachoeira de sentidos. Hoje, ao me resgatar, debruço-me à beira, no vazio profuso de haver um além entre o pensar e o sentir. Debruço sobre todos os julgamentos do que penso sentir e do que sinto sem saber. Piso a estrada com a força de quem entende o que faz, mas faz sem pensar. Arrasto no meu andar raiz um bocado das pedras do caminho. Assim, vou levando na retina os espinhos despercebidos de estar descalça. Grata de ser quem me descubro a cada clareira.

Muito obrigada. Muitíssimo obrigada por me aceitar sem eu conseguir me explicar, e, em me explicando, complicar mais do que esclarecer. Muito obrigada por me deixar fluir sem medo e sem culpa, por abrir o peito e o coração e a alma numa exposição sem limites e sem pudor. Por me deixar tomar pela beleza, pela beleza até onde não há beleza, porque o olhar é o sujeito da oração, e vê o que quer, o que não quer, o que nem sabia que haveria. Obrigadíssima por me ouvir, sobretudo os meus silêncios infinitos, as minhas dores insolúveis, as minhas dúvidas onde expresso puro consenso, puro consentimento, pura presença. E eu me apresento no sorriso alegre de frases inteligentes, e me apresento na distância impassível de um gesto. A alegria é o sol do meu dia, há dias e dias sem chover. Muito obrigada pela generosidade em tentar me entender, eu que não me entendo, que falo alto quando queria cantar, murmuro quando precisava gritar, e me descabelo quando o que faria era derreter. Muito muito obrigada porque o dia se abre no meu peito a cada momento que encontro você.

Te amo.

sábado, 15 de setembro de 2012

O amor diz sim


Eu não concordo com a proposição de que tudo que é bom é difícil. Muito capricorniano para alguém de fogo. Mas cada vez mais acredito que tudo que seja realmente importante custa caro, e na mesma proporção. Sim. A vida pede sangue, acontece no sangue, se nutre de sangue. Dói e se arrepia, emociona e faz rir, fascina e faz medo: neurônios existem para sentir.

O que é de graça só faz passar. Quanto do que você ganhou era o que procurava? Ou ainda, quanto do que ganhou você se lembra agora? Assim, não estava querendo, não estava procurando e ganhou. Se esqueceu, não era assim tão importante. O que importa é algo que grava na pele, como tatuagem. O que importa fica na retina, você vê de olhos fechados. O que importa custa caro. E você paga.
Agora, tem aqueles que naturalmente não pagam. E ficam muito irritados de não conseguirem. E se revoltam, viram a cara, não dormem. Sendo importante, pague o preço. Você pode imaginar alguém barganhando o amor de outro? Aliás, tem quem considere o amor uma conquista e ainda quer paz na relação! 

Tudo que é muito importante tem um risco. Vale mais quanto maior o risco. Quando você quer uma coisa, muito, corre o risco de se frustrar e, claro, também há sempre o risco de ser feliz. É o que é a vida. Beleza e feiura, mas em intensidade suficiente para fazer a diferença. Porque a mornidão da vida que passa, escorrendo como água de bacia, é a falta de memória no fim da vida. É a falta de lembrança. É o esquecimento.

Bem, você pode argumentar que tem coisa que promete, mas não cumpre. Parece que vai ser bom, e não é. Vai ser um sonho, e é um pesadelo. E eu concordo com isso. Na verdade, olhe com calma. A coisa parecia ser boa ou você é que queria que fosse? Era o amor de sua vida ou você se fez crer nisso? Todos os sinais mostravam o contrário, todas as pessoas já tinham sacado o dissenso, mas você insistiu. Remar contra a maré parece ser um bom exercício físico, molda o caráter, fortifica a vontade. Mas não leva à felicidade. 

Felicidade é um atingimento. Para chegar, você precisou partir, precisou definir objetivos, precisou dizer o que queria, precisou saber o que estava fazendo. Felicidade é extenuante a certos momentos de visão. Por isso alguns desistem. Ou fingem que estão tentando. Correm na esteira desregulada de sua imaginação, contando mentiras e guardando ressentimentos. Não é fácil ser feliz. Exige comprometimento, empenho. E é isso que chamo pagar a conta. Chegue no balcão, no belo e estonteante balcão da vida, peça o que quiser, pergunte quanto é, enfie a mão no bolso, pague e leve. Por que não haveria de pagar? 

Eu também queria ganhar tudo. Tudo a ponto de não precisar nem declarar o meu desejo, de não descobrir que desejo. O tudo que faria uma pessoa feliz. Só tem um problema: aquilo que me faz feliz não precisa ser o que faz você feliz. Por isso, posso estar ganhando tudo o que não queria. Se eu disser que o que queria era você, posso receber em resposta que você não é um prêmio para ser ganho. E meu amor por você pode ser apenas uma coincidência.
Gosto do dar-se de graça da flor. Bela e exposta, dada já por natureza, com perfume de jasmim ou a beleza da orquídea, com a bravura da rosa ou a doçura da violeta. Um amor assim era fácil, era só ficar olhando, olhando, sem nunca querer levar no peito, para que não o queimasse com o calor da pele, não lhe sufocasse com a pressão do abraço. Então, algumas vezes, até o que custa caro e é pago, não dá para levar. 

Ainda assim, correndo o risco de não levar, continuo acreditando no amor. E mais: hoje eu quero o amor que tem coragem de dizer sim.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Se entregar é uma arte


Olho em volta, tanta coisa por fazer. Tudo por arrumar, organizar. Pagamentos, acertos, backups, essas coisas de quem passa o dia atrás de uma mesa, na frente de um micro, respondendo e-mails, enfim, um dia bem burocrático. Ainda por cima, pelo horário, com fome. Para resgatar o humor, que, no entanto, não me havia abandonado, ouço música. Não consigo focar e não me culpo. Pesquisas por realizar, textos por escrever, responsabilidades em cima da mesa. Então, por ser um tédio, largo tudo. 

Fecho os olhos, faço yoga. Telefono para amigos, bons amigos, amigos para levantar o astral, que também insiste em se manter no alto. Alço voo em terra firme. Conecto-me com o paraíso possível em vida. Se eu pudesse sair com uma câmera na mão, olhando a passagem do tempo, a passagem do vento pelas costuras das roupas, fazendo arrepiar a pele, fazendo salivar até o mais duro coração, fazer a imagem cheirar, aquecer, beirar o abismo de si mesma, e levar assim o olhar de quem apenas passa pela vida, eu já me sentiria feliz um dia a mais. Uma hora a mais. Um instante a mais. 

Sei que não dá para ser mais nem demais o tempo todo, porque a vida precisa do menos para preencher, mas a paixão é necessária. É necessária a intensidade desnorteante de quem declara seu desejo do alto de seu medo. Medo e fascínio. O arrepio que sobe pela coluna vertebral da base até acender o cérebro, incandescer, iluminar. Coisa que o amor faz. E a arte imita. Repete. Devolve. Rodopia no tablado como uma dança circular. Como um rádio quebrado captando a frequência espacial das estrelas.

Por que procurar na vida algo além da arte? A arte alimenta, no mínimo, a alma. A arte enfeita, estreita o abraço, espera a resposta, toca, sensibiliza, inventa. Sem arte a vida é um amontoado de cenas que se sobrepõem. E se as cenas forem remontadas, adequadamente com cortes da memória infalível, então é cinema! Arte!

Eu não consumi nenhuma droga. A alucinação é decorrente da vertigem que emoções fortes e doces provocam no corpo. E o corpo é o senhor absoluto da emoção. Senhor absoluto da arte. Capitão captor da faísca cósmica que gera a vida. O corpo pede o que precisa. Escuta o que pode. E dá o que tem. Seja uma palavra escrita por mão aflita, seja um beijo de boa noite estrelada. Faça silêncio ou faça sol. Faça chuva ou amor, o corpo é o mestre cuja alma está a se converter e se recriar em outro. Onde começa um e termina a outra? Onde se esconde a alma de um corpo ansioso por expressar-se? No olhar? No brilho do olhar? No olhar que fixa, questiona, e se umedece de tanto prazer? Ou na palavra que não é dita? No intervalo entre o sim e o não, no momento da dúvida, do desejo, da preguiça?

Meu corpo pede calma. A calma de comida boa cheirando na panela. A calma de lençóis limpos e macios à espera. Calma de quem sabe o que quer e o que não quer. Meu corpo pede com alma. Pedidos assim não podem ser desconsiderados. Por esse motivo, e pelos demais, fecho os olhos para os deveres incompletos. Fecho a porta das obrigações irrealizadas e me entrego de braços abertos e soltos para a aventura de ser, de se deixar ser, de sereno sem medo. As palavras me guiam e me torno silêncio. Para ouvir o vento. Para ouvir o coração.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O amor é um sorriso


Gosto do sorriso que me faz no rosto o lembrar. Simples. Delicioso. Leve. É ato contínuo, como se fosse possível reviver o momento, o gesto. A verdade é que revivo na pele o que a memória me traz. Quando é ruim, faz um movimento no estômago, quase um soco. Quando é bom, faz um movimento no estômago, quase um frio, um arrepio. E quando é bom demais ainda vem acompanhado de sorriso. 

É bom passar pela vida assim, sorrindo o que se viveu com prazer. Porque viver é mais que isso, é mais que o prazer do contato, o prazer de experimentar junto. Mas não tem coisa melhor para lembrar. Aquele momento pequeno, que passaria despercebido de outra maneira, para outra pessoa, e que, no entanto, por voltar em forma de corpo, um sorriso na boca, o olhar divertido, marca mais que tatuagem. Fica mais que palavra escrita. 

É que a alegria faz o coração bater melhor, limpo, desenvolto. Faz o estômago trabalhar com bom humor. Os pulmões explodirem cheios de ar. A pele melhorar. O olhar brilhar. A alegria que pode vir de tantas formas, é ainda melhor quando vem acompanhada. Ela aquece sem precisar acender o fogão à lenha. Alimenta sem precisar cozinhar o pão. E enche de vida sem transbordar o copo. A alegria, ela mesma, ela que vem com o pulsar do sangue de haver alma no corpo, de haver emoção no toque de pele, essa alegria pode matar a fome, saciar a sede, acabar com a guerra, fazer nascer flores no peito de quem tem medo.

Eu queria poder derramar no copo de cada pessoa um pouco dessa alegria encantada de haver encantamento ainda no século vinte e um. De saber que haverá sempre encantamento possível para os que quiserem beber da confiança. Beber da certeza. E haverá certeza nos corações das pessoas? Deverá haver pelo menos uma certeza: o amor é uma realidade. Ele é o ar que esquenta com a aproximação dos corpos. Ele é a água que escorre de uma emoção pungente, de uma beleza estonteante, de um sentimento único, reconhecido.

Eu não sei o que é felicidade, um estado eterno de emoção em alta. Não sei o que é acordar todos os dias, todos os dias da vida vivida ou por viver, experimentando o que é felicidade. Não sei o que significa uma emoção perene, um sentimento inalterado, infinito, feliz. Não sei. Não sei o que é ter confiança na vida, minuto a minuto, instante por instante. Eu não sei não ficar triste ainda. Não sei ainda amar incondicionalmente. Mas sei o que é alegria fácil como a brisa do mar nos cabelos soltos. A alegria leve e descontraída de quem dormiu bem, metade a sonhar, e acordou para ver seu sonho de olhos abertos.

Nada dessa alegria romântica, exaltada, deslumbrada que idolatra o outro e lhe veste de tantas frases, de tantos gestos que, impossível se mover, faz sucumbir de cansaço. O amor romântico que prende os dedos de mão em mão, com laços de eternas promessas. Pesado demais para mim agora. Demasiado apertado para os meus braços agora. Eu quero a liberdade de ser alegre por viver, por lembrar a vida, por reviver cada minuto como um futuro a se realizar.

Posso ir dormir todos os dias da vida que virá só de lembrar a ternura, só de sorrir de novo pelo mesmo motivo, pela mesma emoção. E o que é isso senão amor? O amor que foi soprado dos lábios de deus direto para nossas narinas sedentas. O amor que é a alma do corpo, um corpo que aquece e revigora e se reconhece na fogueira que queima. O amor delicado e doce da poesia que o sangue escreve enquanto pulsa. Amor como chuva fina, silenciosa, mas que enfim molha, envolve, enternece. É dessa roupa que me visto agora. Uma seda sutil trançada de alegria. Não, não foi nenhum bicho que teceu essa seda, foi tecida do silêncio de um olhar que permanece. E me acompanha.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Não sou da cidade grande


Eu não sou mais da cidade grande. Não sei me encontrar nela. Não sei sequer me perder. Estou fora dela como ela está fora de mim. Onde estão as pessoas? Onde elas se escondem em noites intensas? Onde elas vagueiam? Eu não as encontro, procuro, mas rodo em círculos, fico parada no tempo, até por fim sentar e tomar um café. 

Não encontro os telefones, deixo recados que nunca serão ouvidos ou reclamados, ou respondidos. Olho em volta, reconheço a rua, reconheço o lugar, fisicamente. Mas o espírito, eu não localizo. Quais os símbolos? Eu os perdi quando saí daqui para nunca mais. Joguei as chaves no bueiro do lado de fora da calçada. Eu não me entendo mais aqui.

Os sinais, que me dizem? Que não sou mais da tribo, não tenho a senha, não sei mais passar pelo portal. Cruzei a linha precipitadamente demais. Minha viagem não permite volta. Tarde demais. Forte demais. Longe demais. Desci os porões além de onde havia possibilidade de ir. Subi os telhados transparentes e quebradiços dos desejos desajeitados da minha herança. Fui. Transpus. Me perdi? De folha outonal caindo da árvore passei a borboleta subindo para o vento. Diferente? O mesmo vento a soprar. Só eu que mudei a vela, a direção.

Hoje não quero voltar. Eu só queria reconhecer as esquinas que já cruzara antes. Só queria ver a cara daquilo que me dizia alguma coisa antes. Antes do fim. Antes, quando eu era apenas mais um alguém a andar pelas ruas. Perdida em ziguezague refém do tempo, do medo, do peito frio, desconsolado. Desconsolada. Des.

Desconstrui quem eu era para poder partir. E hoje, quando me sinto, aqui longe do meu lugar, parece que nunca pudesse ter sido diferente. Encontros marcados em ruas desconhecidas, com pessoas que deixaram de ser. Fantasmas emudecidos de quem fui. Tantas.

A cidade grande é um xamã hipnótico que acompanha e encaminha os iniciados. Protege e alicia os que aceitam. Depois, expulsa quem não o segue completamente. Feche os olhos e siga em frente. É uma ordem. Não pense na vida por levar, não sinta saudade de nada que já passou, não tente entender o que aconteceu. O grande irmão existe de verdade. Ele filma no semáforo, ele grava no elevador, ele não deixa que você passe em vão. Faça parte dessa turma. Seja alguém a remar na mesma direção. E se você partir, um dia, ninguém sentirá falta. Ninguém vai ligar para ver se aconteceu alguma coisa. Porque você só existe se está na mesma maré. Subindo e descendo na mesma onda. Depois disso, bem, depois disso é bom que o que você faça lhe faça sentido. Que você suma para algum lugar que tenha coração. Que você se encontre numa casa que pulse com sua chegada. Que você durma sem turma, mas de bem com a vida. 

A vida não é um albergue lotado. Antes, é um voucher para um passeio de caiaque que leva você aonde quiser ir. Vai até onde você for. A vida pode ser silenciosa e muda como um filme antigo. E pode ser um balanço no meio da tarde, longe, tão longe que dá para ver a silhueta do sol se por. Não é barato, não. E dá um trabalhão ficar olhando para um céu azul sem fim. Não tem a comodidade de ser porta com porta, janela com janela, carro, buzina, farol. As pessoas não estão tão fáceis ao pé de uma agenda eletrônica. Sem sinais, é preciso falar declaradamente. Declarar sua falta. Declarar que importam. Em voz alta, olho no olho, expor mesmo. É, até a liberdade tem preço.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Monólogo logo Maria


I ato

(a luz acende, o personagem já está no palco, olha para o público.)
Eu sou o artista. Vim para cá surfar nessas montanhas bem cedo quando o sol pode me banhar o rosto com seu dourado nascendo daquele outro lado. Na verdade, eu cheguei primeiro porque o artista sempre chega primeiro. Ele sempre vem antes de tudo. É por isso que ele é diferente. É por isso que sou diferente. Esse meu olhar meio vidrado, parecendo que está apaixonado, um pouco alegre um pouco emocionado, é assim mesmo. Tenho aquela loucura indisfarçável de quem sabe tudo ou já viu tudo. Eu vi. Vi cada uma dessas sementes germinarem e buscarem a luz do céu aberto porque elas cresceram em mim. Doeu, eu vou te contar, doeu muito quando elas irromperam a minha pele para abrir aos pares suas folhas verdinhas, fraquinhas, mas decididas. Foi por mim que passaram essas nuvens fazendo uma névoa nos meus olhos. Essa terra vermelha e seca no inverno já floriu de todas as cores, com as cores do arco-íris, plural e multifacetado, já se cobriu de verde de todos os tons, e ficou amarela de folhas secas antes de voltar a ser terra em mim. E depois, montanha. Fui a primeira gota de chuva a cair fria e transparente, fui a primeira pedra a rolar na correnteza, fui o primeiro regato a matar sua sede. Porque o artista é primordial. O artista sou eu.
(apaga a luz)

II ato

 (acende a luz, ao fundo, sombras de movimentos de dança, uma música começa ao fundo)
A diferença entre o artista e as outras pessoas é que o olho do artista chega antes. Ele vê antes. A mão do artista abre o caminho antes que outro veja ali uma possibilidade. E, no branco estanque do lugar comum, levanta a pena e faz pingar sua lágrima que as pessoas ao passarem veem como seu espelho, se reconhecem umas as outras em suas vidas anônimas.
O pé do artista chega antes, traçando no ar um desenho que não havia, fazendo a brisa balançar delicadamente a folha da árvore tocando-se no ar, movendo-se sem pisar no chão. O pé do artista não anda, nem caminha, nem corre, suaviza o vento em sua passagem pelo corpo. É a graça. Num desenho ilógico no vazio faz pairar a dúvida, a beleza, faz parar o ar no peito de quem apenas olha. O artista coloca palavra onde antes só havia conversa. Coloca melodia onde antes só se ouvia barulho. Coloca luz onde antes só se via sombra. Em seu delicado passar pela vida, ora perdido em devaneio silencioso de adágio, ora esvoaçante em delírio soprano de um amadeus em fúria, ainda assim, o artista não passa em vão. Deixa em seu rastro a beleza incólume do que sempre foi, deixa no ar o perfume inebriante da flor que já se esquecia debruçada na cerca do quintal. E da flor que já era poesia amarela no verde da cerca faz uma poesia de flor.
(apaga a luz)

III ato

(luz difusa ilumina indiretamente o personagem)
Eu sou o artista. Não quero passar em vão. Não quero ver a vida passar. Nem passar pela vida dos que me querem bem. Eu quero ser o bem da vida. Quero ser a bem da vida. Quero ser a vida que corre nas veias de todo aquele que olha e sente e ouve e dança e perde o fôlego de alegria. Eu quero ser você como você quer ser quem sou. Você, que me escuta como se ouvisse seu próprio pulsar, que me entende como se entendesse seu próprio querer. Você.
Eu vejo você e sei quem você é. Você é a doce julieta impossível de se amar. Você é helena que raptou meu amor e me levou para a guerra. Você é iracema virgem me querendo um encantador de abelhas. Mas eu, eu sou apenas seu cantor, minha dor é ter que escolher as palavras deixando outras sem destino. E declamá-las por seu amor incerto. Você me ouvirá? Me quererá? Gostará da minha música? Mas eu só sei rabiscar na pauta do meu caderno o seu nome violeta sonhando que te agrada e assim poder tocar sua pele gabriela, perfumada. Por seu amor, ando pelas ruas desenhando nos muros as cores da alegria. A alegria que só sinto ao tocar sua mão na minha, ao trocar o olhar com o seu, a me declarar completamente desprotegido e indefeso, hasteando em cada poste a bandeira do meu querer você. E você, carmen fustigando meu amor, desdenhando minha rima, ainda assim, me ouvirá deliciada, sabendo e querendo que tudo isso fosse mesmo para você. Que seu nome fosse ouvido em cada esquina, em cada sílaba escrita ou falada, um espetáculo do seu prazer e do meu em recitá-la. Nossa união se deu no momento da pedra ainda, quando eu apenas via você no bruto da rocha inerte que vai cedendo ao meu impulso de criá-la. Vai tomando forma pela minha mão que te procura, o veio da madeira enciumado de nossa intimidade tornando-se macio como o silêncio de ofélia. Nesse momento dramático do meu entrar em cena, levanta-se o coro em uníssono em meu auxílio: “cuidado com a rosa, espinho, cuidado com a rosa”. Sim, mulher, eu sei quem você é: você é minha alma.
(apagam-se as luzes)

IV ato

(luz amarela, tremulante de fogueira)
Tenho a coragem dos loucos. E o impulso dos apaixonados. As estrelas me sabem e me sabem as colinas que desenham o meu perfil nas encostas ao pôr do sol. Sou feito o telhado das casas em quatro águas olhando para todos os pontos cardeais e reverenciando o céu de sete véus. Nunca estou só, mesmo em meus passos únicos, galhos espalhados para todos os lados. Quando sigo só, minha solidão é repleta de companhia. Não, não são de gnomos ou fadas madrinhas os meus dias ensolarados. Nem de fantasmas e olhos vermelhos brilhando no escuro as minhas noites sem lua. Me agrada a companhia das palavras febris que despencam em minha cabeça de quebra-nozes. Como um estilingue de lançar pedra num alvo, vou pescando palavras e sons e cores como um personagem de alice. Você quer ser minha namorada? Pergunto para a borboleta. E ela, colorida e exuberante, me responde sem pestanejar: quero ser sua glória, o aplauso de pé com a cortina fechada, o bis do bis do bis. E eu, que só queria sentir tudo completa e de todas as maneiras, me vejo no palco de suas intenções. Os refletores nos meus olhos, não vejo mais onde você está por trás do escuro de tudo o mais. Você se foi? Ou ainda vive em mim esta outra vida que recito para ser você? Lavo a minha cara para tirar as máscaras da cena, e na água que cai vão junto suas marcas. Um pouco das sobrancelhas grossas vai na água, fica um pouco do vermelho da boca, e assim eu, artista da minha vida para a sua vida, vivida em mil papeis reescritos, preso nas paredes da memória, sobre o tablado de madeira xadrez, vou contar uma história para você: era uma vez uma menina que sabia recitar...