quarta-feira, 29 de junho de 2016

Depois do Tempo

Antes de buscar entender o que havia atrás da floresta, daquela intensidade de árvores e copas e bosques, daquele silêncio repentino que foi o encontro de olhares numa clareira desconhecida, antes de começar a seguir em frente, sem bússola, sem plano de voo, é preciso deixar que o tempo verta espraiado como água escorrendo em todas as direções e sobre tudo, inundando de dias e noites em camadas sobrepostas, como areia de duna, como folha caída, até que, se por ventura ainda restasse algo vivo e sensível, tenha sido mansamente apaziguado ou anestesiado.

Depois, o tempo cobre de pó e descasca um pouco a imagem que restou, tirando às vezes um pouco do brilho, se havia, mas também remendando os espaços vazios, esmaecendo o que já não tinha cor ou amaciando os cantos escuros. E, ao cobrir de matizes mais deglutíveis, torna fácil relembrar o que passou, recontar o que a pele sentiu sem chegar a doer ou fremir novamente.

Assim, faz parecer que foi uma decisão lúcida o que era apenas falta de saída, o que era uma porta fechada, secreta, cuja senha ou palavra mágica se perdera por desuso. Faz crer que a insistência em continuar tentando era uma visão romântica e não cansaço. O cansaço das relações impressas em papel de pão, amassado, vulnerável. Cansaço reticente, resistente, reativo, mas ainda assim, cansaço.

Olhar para trás depois, muito depois, não faz estátua de sal, e pode ser facultado por cuidar do jardim, arrumar plantas em vasos, cuidar de cães e dar atenção a outros detalhes que, se observar bem, a vida é cheia.

Olhar para trás, depois que tudo se acabou, é como querer lembrar o cardápio da noite anterior, querer recuperar o gosto ou o cheiro, lembrar os sons dos talheres, as conversas, os silêncios, na expectativa de sentir aquilo que não sentiu, de responder ao que ficou sem resposta, tomar mais vinho.

Quando olho para trás, para o rastro que deixei no caminho que sou eu, onde me detive frente às pedras, onde fiquei à sombra ou mergulhei no riacho, vejo que, por vezes, plantei mudas que crescerão árvores e obscurecerão minha passagem, e em outros momentos, para que pudesse passar, amassei a erva, quebrei galhos, mudei o curso de regatos.

O passado, assim, parece ser apenas uma história contada por outrem, uma história distante, diferente, um retrato congelado de alguém que você já não se reconhece. E então, não há mais julgamentos, não foi nem bom nem mau, nem feio nem bonito. O que passou foi apenas uma forma de falar, um jeito de ver, e não mais uma marca na pele, uma cicatriz.

Olho pela janela e, enquanto vejo a paisagem acinzentada pelo sol, na verdade estou encarando o hiato entre duas mãos estendidas, procurando, tateando no escuro o que poderia ter sido um universo, uma nuvem passageira, um voo flanado no horizonte. O encontro do desencontro. O bilhete para o espetáculo errado, o dia errado. O momento do desengano.

Mas se ainda resta um momento de desengano, então é que falta mais tempo na caminhada. O tempo resgata o desengano, e no passo certo sobre o passeio torto, vai deixando para trás as ilusões, os devaneios, um pouco dos aromas e cheiros, vai desnudando o peso dos ombros, desmarcando reencontros. Como o mar que arredonda a areia, o tempo nivela as paixões.

O tempo preciso para transformar o passado em histórias, para fazer brotar musgo na pedra, aquecer o coração como se fosse folhas secas, caídas no outono, o fim que tudo terá um dia. E também passar, não deixar senão pegadas que o capim cobrirá. Perder seu nome no vento, esquecer o nome de quem foi uma história no seu caminho e hoje, tendo permanecido naquele caminho, você sequer lembrar em qual curva, sob qual árvore, em que momento foi essa história.

Hoje, como quem se embriaga para sentir prazer, eu tomo o tempo em goles largos, espalhados por toda a boca e língua, tomo não para esquecer, dado que não sei, mas para reviver o sonho possível, a beleza palpável, que toda embriaguez recria. Tomo para recontar uma nova fábula de mim mesma.


domingo, 3 de abril de 2016

o que é felicidade?

Eu não sei o que é felicidade. Quero dizer, não sei conceituar. Parece que é daqueles sentimentos inomináveis, exceto pela própria palavra que é seu nome. Sei o que é na pele, quando ela fica tão sensível que a mais leve aragem faz levantar os pelos todos e esquentar a nuca. Sei o que é no peito, quando faz um aperto, uma falta de ar, parecendo um baque, como se de repente, tivesse fechado a porta, batendo. Sei o que é na boca, quando fica seca e não passa com água alguma. Mas sei também o que é quando fecho os olhos e lembro. Detalhes, aromas, sensações.

Felicidade parece ser um fragmento, não uma peça toda. Às vezes se faz representar como monólogo, outras como teatro de arena. E ainda há aqueles momentos insólitos de picadeiro. Nos outros dias, é a casa aberta para a paisagem. O movimento do sol desenhado na sua sombra. Nuvens que passam, pássaros que piam, ventos que chacoalham folhas e derrubam as secas pelo chão. E, muito a miúde, é o silêncio.

O silêncio calmo do fim do dia, sem zunido de insetos ou qualquer coisa. O silêncio que faz o peito, aquietado repentinamente, como se fosse parar e fosse bem perto mesmo de parar, mas, se você observar bem, verá o leve arfar do abdómen descendo e subindo.

Sim. Eu antes pensava que felicidade fosse festa, gargalhadas, uma mistura de champanhe com olhares explícitos. Que fosse só assim, uma expressão ostensiva e radiante, difícil de controlar e de conter. Como quem ganha na loteria sozinho. Hoje eu sei que não há felicidade sozinha, mesmo quando o momento é quieto e intenso. A felicidade é contagiante como vírus em vias aéreas. Não dá nem para falar perto.

Hoje sei que ela pode ser tão minimalista que passa despercebida se você não estiver atento. Você abre um livro e lá está, passeando pelas palavras, pulando páginas. Você joga um tempero que fica grudado em parte nas pontas dos dedos e o perfume que sobe melhora sua vida por alguns instantes. Você olha para o rastro que deixou no chão, ora pegadas marcantes e firmes, ora oscilantes e leves, e sente um arrepio percorrer a espinha: você cresceu. Desgrudou de várias máscaras confortáveis e seguras que ao longo da caminhada vestiu. Identificou, no meio de tanto espelho refletido nos olhos dos outros, a sua própria imagem, real ou ficcional, mas a sua cara. Cantou afinado. Nadou ritmado. Pôs sua melhor roupa e perfume e sentou para jantar, sozinho, uma comida maravilhosa.

Dá para perder as contas dos momentos em que a felicidade esteve sentada no seu colo: o gato pulou brincando na bolinha de papel; você fez pipoca com manteiga; tinha uma cerveja escondida no armário; um chocolate meio amargo; chegou uma mensagem no seu celular; entrou um dinheiro que você já nem esperava mais; deu para chegar no horário para o cinema; os amigos o convidaram para uma festa; havia uma lua imensa lá fora; o chuveiro estava maravilhoso; você dormiu como um anjo. A muda que você plantou, pegou; a alface ainda deu para aproveitar bem; você viu passar de novo, sem querer, aquele carro, com aquela pessoa que salvou seu dia só de passar. Aquele filme que você adora reprisou pela enésima vez.

Agora, e quando nem tudo saiu como você previu? O relógio não tocou; o carro não pegou; faltou sal no arroz, ficou duro e papa; os amigos não chegaram. Como sentir-se feliz em circunstâncias tão desapontadoras ou frustrantes? Dá, ainda assim. A fruta azeda tem mais sabor, o amargo realça o doce. Não tem como ser feliz sem haver uma referência na normalidade, um contraponto na rotina. No mundo dos contrastes, a felicidade também corre pelos vales para chegar ao mar. Então, a vida é cheia de momentos felizes. Basta abrir os olhos e deixar-se tocar.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

nem caça, nem caçador

Agradeço à cientista que fez um vídeo demonstrando sua teoria de que nós, humanos, diferenciamos nosso cérebro devido ao fato de que aprendemos a cozinhar. Cozinhando o alimento, e, portanto, facilitando a digestão, ganhamos tempo de vida. Não precisamos passar o dia todo pensando no que iremos comer e nem passamos o dia todo digerindo o que ingerimos. Talvez, se ela estiver certa, esse fato combinado com o próprio desenvolvimento do córtex cerebral tenha inibido uma característica da maioria dos primatas: ser predador.

Hoje não mais. Competidor sim, mas predador não. Competidor quase ao ponto de ferir, violentar, construindo casas umas sobre as outras, perdendo a capacidade de nos sensibilizar com o outro, deixando de ser empáticos senão com nossos familiares. Mas predador, nesse sentido exato, não. Está certo que a consciência adquirida ainda perde um pouco desse tempo ganho justificando atitudes beligerantes, um tanto guerreiras e onipotentes. Usamos nossa capacidade desenvolvida para explicar nossos gestos mais aberradores, como matar animais, desmatar florestas, manipular outras pessoas, usufruir de tudo que encontramos pela frente sem nos preocupar senão com uma saciedade obsoleta. Até a miséria no mundo é forjada. E poderia ser redimida com um esforço extra do cérebro.

Desenvolvemos o córtex cerebral num ponto especialíssimo, cozinhando nossos alimentos e deixando-nos com tempo para viver sem pressa, sem tensão. Comemos o que precisamos sem necessidade de ficar vigiando se algo mais forte virá nos roubar ou nos devorar. Estamos no topo da cadeia evolutiva, auto proclamado o mais desenvolvido. No entanto, paralisamos diante de uma abordagem mais direta, de uma crítica certeira, qualquer coisa que fuja ao controle.

Talvez, em muitos momentos, tenhamos dificuldade em sustentar o olhar no olhar do outro, coisa de predadores. E de não darmos respostas quando nos sentimos ameaçados, seja por um gesto, seja por uma carta, uma palavra. Até quando essa ameaça possa advir de um sentimento interno, pequeno, de impotência, de fragilidade. Aliás, ser frágil ainda é um problema para esse ex-predador que não virou de todo a chavinha. E que não sabe lidar completamente com adrenalina descarregada no sangue.

Temos medo de ser tolos, de ser inocentes, de rir por bobeira, de parecer bobos. Temos aversão pelo lado feminino da vida, de esperar, de sentir, de perder. E perder é tudo aquilo que nos frustra: do desejo não atingido ao tempo perdido no investimento mal sucedido. É muito difícil admitir a frustração em não atingir objetivos ou não realizar desejos. É quase impossível. Mais fácil aceitar o fato do que admitir o motivo. Aliás, nada é fácil em matéria de frustração. E nesse bololô entra não aceitar o fim da vida, o fim do prazo, o fim de qualquer coisa.
É engraçado pensar que foi justamente um gesto tipicamente feminino – cozer e nutrir – que nos possibilitou fazer essa trajetória de desenvolvimento cerebral. E, portanto, nos afastando desse ser predador original. Mesmo que falte muito para o equilíbrio da balança, o passo foi dado.

Quanto a mim, gosto de pensar que a evolução me atingiu bem mais que um córtex, ou na quantidade de neurônios, herança ancestral e benevolente. Que, embora eu mesma tenha medo de e-mails recebidos, com interesse na minha vida, e que tenha me quedado paralisado sem resposta, na surpresa, como um confronto, um olhar que me espreitasse, eu gostaria de saber de mim que tenha evoluído para uma pessoa melhor. Melhor para meus próprios padrões. Melhor do que eu pudera sonhar a vida toda que já vivi. E usar meu corpo e emoções para realizar o que esse cérebro consegue ministrar. Agir como um ser diferenciado no planeta.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pela Paz

Hoje, finalmente, tomei a primeira cachaça do ano pela paz mundial, pela erradicação dos preconceitos, pela intolerância, pela paz de espírito. Tomei com júbilo. Com fervor. Em prece, em agradecimento, em sinal de reconhecimento pelo que a vida me dá: amplitude, liberdade e horizonte. Hoje, depois de ter escorregado muito subindo a montanha, alcanço o topo, onde o limite do meu olhar é o céu, e, abaixo, uma terra verde de encosta generosa.

Sim, brindei com cachaça boa. Daquelas que fazem esquecer todos os percalços do caminho, todas as pedras em falso, todos os falsos paraísos que ficaram para trás. E não pelo excesso, mas pelo prazer. O prazer, assim como o amor, faz neutralizar as dores, faz rir os dramas e, sobretudo, deixa um sorriso duradouro no rosto.

Não é mérito da cachaça trazer esse prazer. O prazer vem de haver ultrapassado os limites. As fronteiras auto impostas das crenças restritivas. Você pode acreditar por muito tempo que basta retirar as pedras para o rio virar mar, mas antes terá um longo percurso a percorrer.

Hoje, no marco da minha pegada no chão, eu comemoro. Fiz pastel de meia cura com tomate. E sopa de lentilha. Cardápio que me regozija apenas pelo fato de ser o que eu queria comer. A paz é isso. É chegar ao ponto de equilíbrio entre o que há para comer e o que você quer. Basta ser flexível. Basta abrir a geladeira e aceitar.

Embora você possa dizer que paz é muito mais e vou concordar. Isso é muito mais, também. Soltar os grilhões que prendem seus pés ao chão, saltar da imaginação leve para o sonho, como um gato, transcender a nuvem, a foto do celular, ir além do olhar, isso é paz.

O mundo gira sem pressa quando você sabe para onde vai. E o melhor de tudo, gira na mesma direção que você seguir. A isso, brindo. E aproveito para saldar os novos ventos, e os novos eflúvios, todo o ar que me salva de ter estado sufocada pelo simples fato de paralisar. Às vezes é difícil dar um passo quando tudo em volta não nos atende, ou até mesmo quando tudo no entorno é duro como pedra ou frio como a solidão. Dar o passo de acreditar que pode ser diferente, ainda que precise mudar o jeito, o traçado, ou o olhar.

Não dar o passo para deixar de doer. Parece absurdo. Mas às vezes, a dor faz crer que seja necessária, como a margem do rio que limita e restringe seu acesso. Até você entender que seu destino não é ser rio, mas nuvem.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Não Levarei Nada

Não. Não tenho como devolver o que levei. Sobretudo, não tenho como recuperar o tempo que levei para entender que não havia saída, que não havia opção, e todas alternativas eram um erro. O tempo que o espetáculo ficou no ar, fazendo estripulias num trapézio sem rede embaixo. Que meu coração ficou em suspenso, querendo acreditar que, se houvesse amor, bastaria.

Talvez não houvesse. E minha teoria continua válida. Bastaria amar, amar verdadeiramente acima de todas as incertezas, de todas as coisas fora de lugar e da ordem. Amar, independente das datas, dos dias marcados, das regras. Amar nos salvaria.

Talvez o amor fosse pouco. Precisaria mais energia ao acordar, mais disposição ao levantar, mais alegria no passar do dia. Precisaria parar de chover, e toda lama secar. Os cães deveriam ficar quietos, e o guarda-roupa precisava deixar de cheirar, o mundo pararia de girar para acertar o passo errado. O meu.

Quando o amor é pouco, todas as diferenças são grandes demais para serem superadas. E o que é igual, não extasia. As noites não descansam, os dias não alegram. Sequer a beleza das árvores é notada no entardecer, sequer o caminho encontra um rumo de prazer. As flores desabrocham para nada.

Mas o que é pouco? O que é bastante? Pouco é o tijolo que não chega a erguer a casa, que não sustenta o telhado. Pouco é o ficar esperando que um trem pare por aqui, mesmo que não haja trilhos, mesmo que não haja estação. Pouco é o amor que espera pelo outro, sem dar sinal do que quer. Pouco é aquilo que não mata a sede, não apetece, não desmancha na língua, não deixa as pálpebras descerem lentas e confiantes.

Agora, pouquíssimo é o amor que mendiga promessas, gestos dramáticos, e, acima de tudo, que precisa de sacrifícios. Não atitudes abnegadas e generosas, mas sacrifício mesmo, com dor, com peso e sangue. O amor que cobra tributos e impostos, que cobra pedágio.

Por isso, porque sei o que levei, e levei muito pouco, também sei que não deixarei muito. Não deixarei rastros pela casa, nem meu olhar ficará gravado no vidro da janela. Talvez um livro me aponte o dedo, ou talvez uma árvore plantada no meio do quintal ainda possa dar muitos frutos, frutos que não colherei, mas que serão sumarentos e doces. Talvez coisas que não me chamem pelo nome, que poderiam ser de qualquer um, fiquem pelos porões, nas gavetas, ou em vasos espalhados por todo lado. Mas meu coração não deixará parte alguma. Não ficarão cacos do que se partiu. Nem sob o tapete.

A vida não parou para eu nascer, nem pararia para eu descer. Eu pulei e saí nadando, quase sem fôlego, quase sem acreditar na água fria. O bom do frio é que ele faz você se mover, sair do lugar cômodo, tentar alguma coisa diferente. Sim, porque repetir é demais. Agir como se estivesse sempre à frente da mesma pessoa ou situação, em confronto com o mesmo inimigo, dançando com o mesmo par, é, dentre tudo que posso viver aquela que mais me cansa, me desanima, me faz cair os braços e os ombros, sem tentar segurar o pão que estava ali antes.

Eu vou seguir assim, sem levar nada por ora. Sem levar sequer a lembrança do que foi, maculada que está acorrentada com cadeado sem chave, para ser lançada ao fundo do rio. Um pouco da lama da estrada vai junto. E a chuva, que cai sem trégua, vai lavando todas as marcas, todos os registros e sinais que poderiam indicar quem sabe uma porta possível para um depois. Ao invés, pisoteada com a lama, a grama encobre os passos e as direções. Vou rumar para longe. Olhar para o horizonte, contemplar a paisagem renovada. A hora é do vento levar, de se deixar levar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Mudar é preciso

De fora para dentro, vou renovando minha vida. Nova casa. Coisas e coisas do antigo recicladas – não precisa senão de coragem. Caixas de papelão dispensadas. Roupas. Minhas células renovadas no corpo. Nada ficando para depois. Nada que me ocupe espaço. Reduzi a quantidade de paredes. O quintal é do tamanho para andar nele, do tamanho que precisam cinco cães. E varanda para olhar as montanhas, um horizonte tornado mais longo, tornado mais silencioso e fresco.

Enquanto dispenso coisas, outras chegam no lugar. Um gatinho novo para olhar com aqueles olhos de perscrutar a alma – todo gato perscruta. Galinhas do vizinho passeando solenes no meu quintal. E bois ou vacas em visita constante ao lado da cerca. Pássaros desconhecidos fazendo sons estranhos à noite. E, para variar muito, mas muito mesmo, minha ordem nas coisas de dentro. Não sei decorar, meu senso de beleza é esquisito, sou solta demais. Misturo a dança da criação de shiva com kombi e fusca de brinquedo. Quase irreverente, quase mau gosto. Quase um erro de harmonia, mas não é. Agora é minha casa. O meu jeito é só um outro jeito.

A névoa não, ela continua a invadir os espaços, entrando lentamente, penetrando as árvores, o vale do entorno. Brumas. Por trás delas, quantos seres devem estar festejando a vida? Quantos não devem aproveitar que a nuvem desceu à terra para viver um dia no céu? O verde escurecendo do entardecer nevoento me fazendo feliz. Outra vez.

A felicidade é assim, uma névoa que entra no quintal e muda tudo. Muda o olhar. Muda a distância de tudo, o tamanho. Relativiza a importância, troca a ordem. Amacia a língua, o toque. Dá vontade de abraçar.

Hoje, como se fosse um aviso da natureza, choveu. Choveu muito. Desde cedo. Como precisava dessa chuva. Uma chuva de chuveiro, mansa e contínua. Foi como se lavasse o meu rastro. Foi como se apagasse os sentidos que já não têm mais lugar. Lavar de escorrer, de levar para a terra, penetrar no solo, carregando o peso de outras vidas para além dos pés, para além das sombras. Chuva fria, que arrepia, que se faz presente, impossível de não ser reconhecida. A alma precisa de uma dessas a cada temporada. Para ficar pronta para uma próxima.

E sempre há novas temporadas. Dá para tornar a vida uma aventura apenas seguindo em frente, sem se virar para trás. Só com coragem. E a coragem, o que é senão confiança? Caminhar à beira de si mesmo, ousar olhar para dentro, para o abismo, sentir vertigem e ter um frio na barriga, sentir a morte chegar, correr riscos. Morrer de medo. E, apesar do insólito, da falta de sentido, apesar de não entender o que está acontecendo, apesar de tudo contra, de todas as portas fechadas, de toda dor, toda impotência, apesar do apesar, seguir em frente. Abrir caminho onde falta direção. Romper os obstáculos. Ter tempo de pensar, mesmo quando o que há para fazer é pular para a outra margem. Aventura pura.

E agora, que entrou em cartaz um espetáculo de porta aberta, de teatro de arena, de espaços amplos, de possibilidades desconcertantes, de rimas fáceis e divertidas, agora, que o tempo de chuva é apenas uma limpeza para o azul que virá, agora, exatamente nesse instante, estou com o bilhete na mão, com o pé no palco. A luz em mim me ofusca um pouco. Posso entrar tropeçando, mas recupero o prumo, a proa. E me encontro.

Para fugir dos monólogos, busco aqueles que entendem minha língua. E para melhorar meus diálogos, procuro quem não entendo. Às vezes acerto, outras não. Quando não, é duro. Difícil de aceitar e de dormir. Eu sou do lado luminoso da vida, o palco, aplausos, músicas, palavras, pessoas. Prefiro o sol à lua, mas como ela é linda. Ainda assim, algumas vezes, preciso seguir sozinha, no escuro ou sem fundo musical. Nos contrastes, a vida vai se revelando.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Amanhã vai ser outro dia

Eu não estou preparada para a perda. É sempre um impacto. Preciso de tempo para mudanças. Preciso de sentir um pouco antes de conseguir pensar. Olho para o vazio que ficou e paro. Meu coração vai aos poucos desacelerando e ficando normal. Meus olhos deixam de olhar de um lado para outro e acalmam. Deixo de segurar o ar no peito, um medo sempre enorme de sufocar. Sento. Espero a saliva voltar para a boca e afinar a língua. Encosto. Os ombros caem um pouco até ficarem no lugar. Respiro fundo.

Perder alguém é como entrar num túnel longo e curvo, onde não há como ver a luz do outro lado. É como mergulhar no mar de noite: escuro e silencioso. É como ficar para trás quando todos se foram. Sinto-me como se tivesse sido traída, abandonada, esquecida. Fiquei. Perdi o trem. Perdi o voo. Perdi o vento que anunciava e me anteciparia se eu tivesse ouvido. Perdi de entender por quê. Tudo fica colossal e descomunal. E eu pequena no meio de tudo.

Não. Não sei perder nada nem ninguém. Eu espero ainda por um tempo que tudo volte ao normal. E o normal era como era. Eu não me conformo, não me conforto, não me convenço. Procuro um sinal, procuro um recado sobre a mesa, um bilhete de adeus. Procuro atrás dos móveis, debaixo do tapete, algum motivo, algum traço perturbador que me indicasse, me prevenisse, que me dissesse apenas que fui eu quem não viu, mas estava lá. Estava lá o tempo todo. Todos os semáforos vermelhos, todas as portas fechadas, todas as ligações não respondidas, não retornadas, todas as vezes que minha mão vagou no vazio estendida.

Ou o inesperado, aquilo que leva para longe os braços do abraço. Aquilo que irrompe pela porta sem ser chamado ou querido, e que afugenta cumprimentos, que corta como faca a carne desavisada. Que leva pra nunca mais o olhar, como névoa que encobre o que havia. E esconde a presença. Deixa apenas a lembrança, tênue, da alegria que vivi.

Ao menos isso. O que vai leva consigo os momentos ruins, desconjuntados, destorcidos, todas as situações de desencaixe. Só fica na lembrança o que deixou marcas boas, o sorriso repentino, o olhar de aconchego. Ficam as tardes de sol, os passeios em que o silêncio refletia cumplicidade; ficam cotidianos de filmes e livros e jantares e amigos. A vida, enfim. O bom da vida.

Então, nesse passar do tempo, o vazio vai se preenchendo de novo. Não mais com o movimento de outrora. Mas com fotografias vivas das emoções que ficaram. Ficaram retidas na retina e que apenas uma pincelada inadvertida de alguém pode mostrar. Ou ficam presas na pele e talvez, numa noite de leitura, algumas centenas de palavras espalhadas por um pacote de folhas de papel possam demonstrar.

E nesse tempo, um novo vem habitar os minutos que contam. Uma nova lufada de vento. Uma tempestade que arrasa tudo e deixa o vazio limpo, desobstruído. Ou um rio crepitante como uma fogueira, mas sempre correndo. E, de repente, como se nada tivesse acontecido, percebo que a vida continuou, intacta e conecta. Que as pessoas seguiram seu ritmo e inclusive eu, que pensei que morreria, que dramaticamente chorei e sofri, estou firme e forte olhando pela janela em busca do novo horizonte.

Eu não sei perder e por isso, a cada perda, ainda sinto falta de outra forma de resolver as dificuldades. Ainda penso que existe um jeito de contornar e se restabelecer. Apenas a morte fica ali me acenando dizendo para que tenha calma. Tudo morre em algum momento. Só o que já morreu há muito tempo mantém-se de pé imutável. A vida passa. A vida muda. A vida revive, semente de uma nova planta. De um novo amanhã.