quinta-feira, 10 de maio de 2012

Reencontro


Imagine que eu já sei quem você é. Que marcamos de nos encontrar essa semana, talvez a semana que vem, na rua, na passagem das horas, no cruzamento de olhares que se reconhecerão. Imagine que não temos tempo de mais nada, apenas nos encontramos como a lua se encontra, de repente, com a noite. De repente e pronto. Sem convites, sem telefones, sem escolhas. A rua fria, quase nublada daquela névoa que aparece nessa época. A rua deserta como são desertas as noites sem guarda-chuva. E imitando um sonho, história contada e recontada tantas vezes que virou verdade, você vem descendo o passeio do outro lado, sob as luzes acesas, apenas contando os passos, olhos baixos, desatentos. 

E porque sei quem você é, eu espero, ando com vagar, uma música tocando ao fundo da alma. Procuro estrelas para contar, procuro contar os pulsos, completamente absorta do que será. Já escuto os passos, já entrevejo o balançar dos seus cabelos na brisa fria daquela hora. E como se ouvisse meus pensamentos, você levanta o braço e, dedos envoltos, joga-os para trás. Assim, no acaso da calçada, no compasso do quase inverno, estamos indo para o mesmo ponto, o mesmo lugar. Você sabe que horas são? Sabe qual é aquela estrela? Posso falar sem parar de todas elas, posso falar do rio que corre transparente, e dos seus cabelos estrategicamente espontâneos voltando a cair para frente. Ao invés, calo as palavras capturadas e sem sentido. Calo o silêncio entre duas notas, a pausa retida no pedal, a duração ansiosa de segundos intermináveis.

Cada movimento sem pensar está sob o controle de um ímã, que atrai enquanto despista. Você vem? Eu vou. A sequência de pensamentos perdida e inútil. Falarei alguma coisa? Conseguirei articular uma frase?  E tal como um filme em câmera lenta, vejo ainda cair os seus cabelos pela fronte e esvoaçar para cima novamente. Cadência de pêndulo adivinhando meu destino. Sigo em frente sem perceber a hora que parei, o momento que sentei na calma, à espera de sua passagem. Do lado contrário, você não reduz, não perde o ritmo, e quando assim me vê, parada na sua passagem, sorri apenas, o sorriso do feitiço da lua cheia. Claro e brilhante. “olá”. “olá”? pergunto, mas deveria responder. 

E se você ainda pensa em seguir em frente, eu interrompo o gesto. Vou pedir alguma coisa, perguntar as horas, tossir, espirrar, qualquer coisa que faça você parar. Então, você me verá. Outro sorriso, agora de reconhecimento, e eu de novo tremendo, sorrio para me apresentar. Você sabe quem sou eu. Eu sou todas histórias contadas à exaustão toda noite antes de dormir. Sou o final feliz, o momento do beijo, o sim. 

Meu nome é árabe, das mil e uma noites, meu nome vem do oriente, do sol poente, meu nome foi escrito nas pedras dessas montanhas, foi escrito com a tinta das nuvens que passam baixas quase tocando as faces descobertas. Ele combina com o seu que foi feito de fogo, riscado à flecha na areia do caminho, que arde na noite quando não há lua. Seu nome ligado ao meu é um mantra que o céu canta sem parar. É o amor que entrelaça sem amarrar, que enlaça sem prender. Seu nome sussurrado assim na noite de névoa é o presente que sabia que iria ganhar.

domingo, 29 de abril de 2012

Cordas do coração


Música sempre me pegou. Lembro que não tinha sequer um tocador de discos quando pedi tão insistentemente para minha mãe a Sinfonia número 5 de Beethoven, ela, que imaginava que eu nem saberia quem era esse Beethoven, nem sabia se eu sabia ler o nome dele, porque mal aprendera a ler, perplexa, cedeu e me deu ambos, uma vitrola e o disco. Ouvi tantas vezes, mas tantas vezes que a família começou a entender que já era hora de eu ouvir novos compositores, novos intérpretes, novidades, enfim.

Precisei crescer para gostar de outras músicas. E hoje, parece que não existe nada mais no mundo com consistência tão sutil e sublime que música. Música que toca, que canta, que batuca, que irrompe o silêncio precioso da alma para trazer mais significados, mais mistérios. O que é a beleza, afinal? Que coisa é essa que nos toca e nos prende e nos emociona e nos deixa sem sentidos? Ou ainda, nos deixa com sentidos mais aguçados, mais desenvoltos. Que é a beleza? Um olhar que prende, um toque sensível na pele dos braços, um gosto doce e salgado, azedo e amargo, um gosto que estala na língua, a boca ainda entreaberta.

A música é o ar que não respiramos, que não tem cheiro, não tem perfume. É o ar que dança em volta, fazendo de conta que é festa, fazendo a vez de segredo. Toca tão fundo que faz bater o coração em outro ritmo, traz lembranças, imagens, sonhos. 

Eu tentei tocar piano. Sucumbi à minha falta total de disciplina. Tentei tocar violão, flauta doce, sempre parando diante da primeira dificuldade: a dor. Quando você coloca o problema na frente do prazer, já é um sinal de que está insistindo no caminho errado. O que gosto mesmo é de ouvir. Contemplar. Assistir. Esqueço quase completamente que aquela pessoa que está ali desempenhando o papel de me dar beleza sofreu o flagelo de repetir até a exaustão cada nota, cada tom, semi-tom, fez calos nos dedos, fez inimigos no prédio em que morava. O que vejo é apenas a beleza transparente e doce da melodia que é matemática e é um fantasma de outro mundo. 

E tudo é uma forma de dizer o que se sente. Expressar. O pássaro que canta tem uma estratégia: seduzir. O violino que toca também. Os dedos ágeis de quem sobe e desce pelas cordas, esquecidos de si, mergulhados no êxtase, buscam o enlace. O momento exato em que fisgará a sua alma e a levará onde quiser levar porque, uma vez capturada, a vontade é uma com a música, é uníssono. 

Tem muita vibração nos aromas pungentes das ervas do jardim. Tem muita sonoridade no vento entre as árvores. Mas a melodia, aquela que faz seus olhos abrirem-se para dentro, traz humanidade para o dia-a-dia, traz emoção sincera, perdida nos caminhos tortuosos das rotinas. A música que encanta faz trocar a pele ressequida, as cascas endurecidas ainda remanescentes de outras dores, outras vidas, outros tempos. E o tempo, se existisse, o que seria? Um cruzamento de duas ruas? A passagem de dois trens na paisagem? Ou o vento que balança as folhas rentes ao chão, ora acalmando ora eriçando, numa canção de acordar? O tempo que a música engole sem solfejo. É preciso aprender a esquecer as regras para soltar as cordas do coração.

sábado, 28 de abril de 2012

Eu não sei o que é ser Mãe


Eu não sei o que é ser mãe. No máximo, escrevi um livro, plantei muitas árvores, criei cães e gatos, hoje ainda os crio. Eu não sei o que é levantar no meio da madrugada pensando se o termômetro podia estar errado, que está tudo bem na sua espera sem fim, ou se agiu certo quando fez silêncio. 

Não, não sei o que é ter que interpretar os símbolos invertidos da adolescência para estar presente. Nem ter que pensar todo dia no que vai fazer no almoço ou jantar, simplesmente porque tem que fazer. Não tenho idéia do que seja fazer sempre as mesmas coisas, passar segurança quando não sabia o que fazer, e sorrir alegremente diante do medo. 

Sempre pensei sim que as pessoas tinham missões umas com outras, ou que sua própria vida fosse uma missão de humanidade. E aí, claro, vinha aquela imagem masculina do herói que salva, o herói que articula, voa, enfrenta inimigos inimagináveis, vencendo-os com o valor de seu caráter. Nunca me ocorreu que a missão mais difícil não é salvar a humanidade, mas mantê-la viva. Alimentá-la, acarinhá-la, dar banho, pôr para dormir, ajudar a resolver seus deveres de escola, ouvir suas dores de primeiros amores. Nunca me passou que a missão mais impossível é de proteger sem sufocar, deixar andar sem trauma, sem dramas, e deixar cair seus próprios tombos para entender que não é tão ruim assim, que não é o fim do mundo, que tem muito ainda que aprender.

Eu nunca olhei para esse gesto, o de abdicar de sua autonomia, sua independência, sua liberdade, como uma missão recebida de algum deus, um chefe oculto atrás de um sonho, um anjo que incumbisse tal sacrifício. Nunca entendi o reter o gesto porque era exemplo, o permitir perder a passagem ou deixar partir sem lutar. A mim parecia fraqueza, excessivamente feminino, trágico demais.

Como poderia pensar que nisso havia conquistas? Que a cada dia que visse aquele ser concebido dar um passo para sua própria vida, e o visse sair assim de seu caminho, que poderia rescender a júbilo e realização? Quem me diria que sentir preocupação com o dar liberdade era uma medida da vitória?

Não, não, não. Eu neguei três vezes antes de entender tudo isso. Antes de me justificar sobre o que decidi fazer da minha vida. A vida de escolhas fáceis e difíceis. De escolhas que mudam para sempre as linhas de sua mão, mudam os traços do rosto, mudam a cor da pele. Eu não me perguntava, mas já sabia a resposta. Eu não sabia brincar disso, de um dar-se de graça como as flores, tão expressivas e dadivosas, que não podiam ser carregadas no peito para não murcharem. Nem quis tentar. Nem quis testar.

A vida não é como um teatro que aceita ensaios prévios, que tem um roteiro e segue uma linha. Mas ser mãe é entrar para uma peça e saber seu papel mesmo sem ter lido nada. É lembrar de todas as falas, andar por toda marcação e esperar a luz acender de novo. É uma peça que já foi escrita, perdida a fonte, pagantes de segunda a segunda, com placa anunciando a próxima sessão. Porque é certo que vai ser bisada. Sem cansaço. Anônima. Atrás das cortinas.

domingo, 22 de abril de 2012

Depois da Chuva


Depois da chuva, hoje abriu sol por trás das nuvens. Uma fresta de azul começou a se impor. Muita umidade, mas a claridade dá um ar mais bucólico ainda ao verde geral. Outono. É uma vibração contida, um colorido mal disfarçado, uma luz difusa. Momentos de silêncio real. Parece que a Terra parou de rodar, o vento parou de soprar, o movimento cessou. Vai estalar uma pinha lançando pinhão para todo lado, mas não agora. Um pássaro vai passar voando baixo por entre as copas das árvores, não, não ainda. Tudo parece meditar profundamente.

Meus pensamentos, no entanto, vão e voltam na eletricidade que não há em torno. O universo rodando aqui dentro, em segundos sem nenhuma conclusão. Nem a morte é uma conclusão. Nenhuma resposta pronta para minhas perguntas todas que chegam aos borbotões, chegam em tsunami, carregando tudo pelo caminho, tontas. Nada ficou no lugar. Só eu, sentada no ritmo de um coração suspenso, expectante de mim mesma. Contemplativa no gesto como um reflexo no espelho dágua, absurda por dentro como se a alma se recarregasse no relâmpago.

Procuro calma. Olho em todas as gavetas, reviro todos os armários. Toda calma tem uma alma guardada em si. E eu sou apenas alma irrefletida descalça e dispersa. Sonhando o vão do silêncio, cantando o mantra do retorno infinito.

Eu queria ser o infinito de todas as possibilidades não escolhidas. Tudo que sou, resultado de ter seguido esse e não aquele caminho. E se fosse outro? E se tomasse outra direção? Nada mudaria. Estaria aqui hoje no turbilhão de pensamentos soltos, jumping, num tipo de pensamento-bóia-cross, pensar-risco-de-vida, o que já é uma contradição em si.

Se eu cruzasse com cada uma de mim que não fui, em cada encruzilhada que escolhi, sentasse à mesa para falar da vida que levei e deixei de levar por não ter seguido ali e sim aqui, o que seria? Conversaria com os filhos que não tive, e que alimentei em detrimento de minha liberdade – fantasia de liberdade? A que distância estaria de onde estou hoje? E que resultados seriam a minha colheita a essa hora?

Não, não existe destino. Nada estava escrito antes. A única determinação foi um DNA me trazendo memórias que de outro modo não teria. O resto, o resto foi por minha conta. Aprendi mais? Escolhi o caminho mais fácil? Fui na onda? Voei sem direção? Podia ter aprendido piano, ter ficado no interior, nunca ter estudado, ou já ter me aposentado. Podia ter morrido num acidente de carro, ou ser nadadora profissional, ou ter morado na Bahia, ter vivido na chapada ou viver chapada. A cada momento, uma escolha define uma sinapse de quem sou na trama do universo. Eu sou o que sou. Não haveria outro jeito, outro caminho, outra escolha, senão a minha. Tudo certo.

E no silêncio que o dia fez hoje, minha mente despenteada continua reminiscente de se entender. Minha única missão: aprender. E teria aprendido se fosse dessa e não daquela maneira. Mesmo as pessoas por quem passei, não teriam sido outras, já que eu era aquela que fui e não outra também. Por esse motivo, hoje estou escrevendo sem ter que me preocupar com o lanche das crianças, de filhos que vêm visitar, ou de festas de aniversário para organizar. E sim, o sol despachou definitivamente a chuva para longe e para outro dia, talvez. No agora que posso contar, a claridade de fora ilumina o interior bagunçado. E por iluminar, sorrio. Esse era o meu destino aceitável, recriável, compartilhável. Então, rompo o silêncio geral e coloco minha música preferida. Afinal, posso viver a ilusão de pensar que escolho o que vou viver.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Milho verde e paixão


Hoje foi a noite da comida da vovó. Não tenho mais avós comigo, cozinhando para mim. Mas se tivesse, comeria com certeza o refogado de milho verde com arroz branquinho, muito queijo parmesão ralado e manteiga. Comida carinhada, feito abraço terno, coisa de quem nunca vai pedir nada em troca, nem beijo. Mas coloquei um tempero diferente: coentro fresco. Eu sei, muita gente não gosta nem come coentro fresco. E não vai saber o que está perdendo até tentar. Eu também não gostava. Aliás, detestava. Não podia ir a restaurantes chineses que lá vinha aquela multidão de coentro picado em cima de tudo. Não podia comer comida baiana. Ia logo avisando para não colocar coentro. Tirava tudo antes de começar a comer. Mas coentro, como tudo na vida, é uma questão de se acostumar. De tentar mais uma vez. Afinal, até paixão é um reencontro, poucos são os amores à primeira vista. Quase sempre foi um olhar de novo, um novo cruzar pela sala, os olhos que se perderam e voltaram a se achar.

Passei a vida, até agora, procurando referenciais de quem eu sou. Do que gosto e do que não gosto, do que é bom e do que não é. Faróis nos mares anoitecidos, sinais deixados de propósito sobre criados-mudos, músicas cantadas ou tocadas reincidentes, qualquer símbolo ou ícone que fizesse sentido para o meu sentir de mim. Coentro era um contra-sinal. Quase repugnava. Quando foi que ele virou o jogo comigo? E fui aceitando aos poucos, deixando no prato, mas tinha que ser bem picadinho, pulverizado. Depois fui querendo mais. Fui precisando de mais. Quando foi que ele me capturou, seu aroma cítrico, meio cheirando a folha de limão, perfumado, mas masculino, penetrante?

Não, definitivamente eu não planejara passar a gostar de coentro. Eu apenas me deixei levar pelo seu cheiro, pelo seu jeito de acomodar os sabores, impetuoso e único. Eu nem percebi que me acostumava, que o aceitava, que o desejava. Eu nem percebi quando fiquei cativa, que o procurava no prato. E ele me faltava. 

Hoje, meus referenciais, bem sei, estão à deriva. Vagam por aqui e por lá, sem deixar rastros. Às vezes submersos, mas sempre na dança das ondas, subindo e descendo por prazer. O que era bom, nem sempre é ainda. E o que deixou de ser, voltou a ser com a mesma desenvoltura dos dançarinos que rodopiam no salão. Quem eu sou? Um tornar a ser, quem sabe. Um ser que não se repete. O rio que passou sob a ponte. A nuvem, o vento, a flor que se abriu e exalou o perfume todo que continha até exaurir-se e ser apenas uma lembrança nos olhos de quem a viu, nos sentidos de quem a tocou. Quantos? Talvez nenhum, talvez um. Mas se foi um, esse que teve a insensatez de experimentar, correndo o risco de se perder, perder o controle, perder o medo, perder, enfim, as amarras, porque a liberdade e os sentidos fazem laços imperceptíveis, invisíveis, impossíveis, esse que se arriscou sem saber, inocente de seu gesto, terá vivido. E terá sido bom? Terá sido ruim? E ele responderá: coentro fresco. Você saberá o que isso significa?