quinta-feira, 15 de março de 2012

O santo que me criou


O santo que me criou me fez azul para combinar com o céu, para reluzir com o brilho das águas do rio, para fazer um sorriso na boca de cada um para quem sorrio. 

E depois, me soltou no mundo para que a liberdade me criasse asas e para que aprendesse o lado sério da vida. Porque nós, os azuis, somos alegres a vida toda, temos no sangue o riso dos que confiam e a magia divina do impossível.

Nas águas turvas dos que sentem dor aprendi a confiar no que não vejo, a seguir sem ter certeza e a agradecer diariamente que não me nasça flores no meu peito, pois as veria murcharem.

Depois ainda, sem medo de me arrepender, subi as montanhas calmas e verdes dos que se preparam para o que vai vir. E lá pude encenar todos os dramas épicos do mundo que passou, do mundo que não há mais, ajudando a tirar as cascas, a pele dura e ressequida, velha, que ainda recobrisse, por ventura, os corpos de alma renovada.

Então, descobri o que já sabia: que esse mundo é repleto de anjos. Que suas asas se unem umas as outras por um cordão dourado formando uma imensa teia. E, à medida que alçam vôo, vão recolhendo aqueles que escolheram não voar, escolheram o caminho mais difícil. Enquanto dormem, seus sonhos são apaziguados e suas almas alimentadas para que amanheçam com ânimo de voltarem para suas vidas de pés descalços.

E assim é porque a felicidade não é um tesouro no final do túnel, é um caminho que se trilha a cada passo da alegria.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Resolvi ficar em casa

Resolvi ficar em casa, ouvindo o som da corredeira que passa à sombra das araucárias. Monótono, intenso, preenchendo meu dia quente. Dormi mal e agora esse lado da noite me retorna no claro do dia fazendo um peso nos olhos. E a mim bastava ser apenas um regato solto descendo a corredeira à sombra de árvores, esquecido das pedras.

Mas não esqueço. A cada borbulha que a água faz descendo, a pedra está lá para me lembrar de que ainda estou viva. Que ainda tem sangue correndo nas veias, num ritmo de coração. Acho que é normal só sentir o bater do coração quando ele acelera muito, num sobressalto, num arrepio, num estrondo de trovão quando o relâmpago passou fulminante pelo estômago. Na brisa leve nem lembro que tenho um motor funcionando no peito. Nem lembro que ele funciona. E a vida vai passando feito bote em lago no entardecer. Fazendo sombra e luz na superfície, tocando o céu com a mão na água.

Vou buscar um perfume conhecido no ar que passa subindo pelas minhas pernas. Ou talvez não suba, talvez apenas passe, mas eu sinto correr fresco um pouco de alfazema. É do meu banho, não do vento. Então percebo que me enterneço com as emoções mais fluídas, mais líquidas do que nunca, escorrendo elas também pelas mãos que querem frustradamente segurar tudo, controlar tudo, entender tudo.

O que quero e o que não quero se desencontram por essa passagem, se atropelam e se confundem numa só coisa, num só emaranhado que me paralisa diante da janela aberta. Saio ou não saio, corro ou não corro? E fico. Vou ficando olhando e sentindo como se um cordão invisível esticasse de um lado ao outro do rio, segurando os galhos, os gravetos, as folhas secas caídas sem querer. Segurando minha mão para que não vá embora na cachoeira vertiginosa em que o rio desemboca. Tudo lindo. Tudo infinitamente lindo. Se conseguir escapar de viver ao ritmo do coração talvez eu flua pelo seu leito sem medo. Mas por ora me afogo. Afundo e volto presa no redemoinho que tanta água faz na minha cabeça.

O novo me assusta como se levantasse e desse os primeiros passos antes de cair de novo. Mutante de mim mesma. Fisgada na minha isca, a linha que dei e dei e dei, até enrolar-se pelos meus cabelos, intrincadamente nos pelos. O mel na pele que a língua anseia. Abraço e me enlaço no momento em que quero voar, as asas pendendo pesadas molhadas. Eu podia ser um regato solto, mas ao fim, me torno apenas as veias pulsantes de um coração truculento. Eu podia ser um pássaro planando, mas retorno o plano do voo, a ponta do lápis marcando o céu. Nas linhas das mãos, as emoções pingando sem sentido. O que sinto, me perde de mim, me leva correnteza abaixo. Excessivamente abaixo. Então, numa fagulha, consigo sair da água, jogar os cabelos para trás, e respirar profunda para mergulhar novamente no silêncio e no gozo plácido antes do grito.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Não é difícil se apaixonar

Não é difícil se apaixonar pela paixão. É muito fácil, até, querer o desejo. É quase impossível resistir ao apelo do enlevo. Um dia após o outro, alimentando-se de palavras românticas, gestos transbordantes, olhares que se procuram. Eu quero um para mim. Acordar no meio da noite sonhando com o beijo que beijou sem querer mas que agora quer. Acordar no meio do dia pensando que o pensar que lhe deseja é seu também.

Mas se não for? O dia nasceu cinza, todo nublado. Não há um azul brilhante como o olhar espera. Não tem um pôr do sol retumbante, deslumbrante, que impeça o sono de vir. Não tem um perfume, aquele perfume, no ar. Não tem o cheiro do cheiro que é seu. Não se reconhece naquela alegria estonteante que deveria consumir seu peito, consumir seu pensamento. Fazer o mundo sumir.

E agora? E se o coração continuar no seu eixo, sem se perturbar, se o ritmo da brisa, o fluxo do vento, a passagem do tempo, nada saiu do lugar. Nada se perdeu ou se achou. O mundo continuou a girar. A vida continuou mansa e macia, vertendo-se como um vinho rubi na taça, lágrima que escorre demoradamente, de alegria, da mesma alegria de antes.

Quem foi que me acordou para assistir ao espetáculo do cotidiano desapaixonado de uma vida que já se apaixonara por si? Quem quis mostrar-me o brilho especial do sol que se expõe sempre e sempre e sempre para aqueles que apreciam a beleza ela mesma, despejada pela torneira generosa e ligeiramente entediada da felicidade? Ah, com que autoridade alguém poderia entrar na minha vida, tirar-me do conforto de cada dia, para mostrar o que vejo ao olhar no espelho?

O amor plantado em mim já começara a brotar, florir até, e eu queria apenas que ele fosse toda a emoção que sinto agora. A emoção de quem não precisa. A emoção sincera de quem não quer. De quem está bem, está ótimo, de quem poderia muito, muito bem seguir sozinho. É por isso que hoje caminho na montanha, sobre pedras, para não deixar pegadas. Para não pensar em voltar. para não olhar para trás. Para não me acomodar mais, nunca mais.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pode esperar amor eterno

 Pode esperar amor eterno, mas não que dure para sempre. Porque tudo passa, só o amor fica. O amor não é um sentimento, é o próprio espírito. E o espírito é livre por natureza. O espírito é a liberdade. Não haverá amor onde os laços se sobreponham ao correr solto, onde os abraços prendam mais do que apertem. Sobretudo, não haverá liberdade sem leveza. Onde há pressão, prisão, opressão pode até haver desejo, mas amor nenhum.

Então, me espere para se deitar e não feche os olhos antes de um abraço terno e fresco. No silêncio da noite, seu silêncio se unirá ao meu, profundo e único. E antes ainda, no olhar que não se desvia, iremos tocar a alma para fazer um sorriso brilhar no escuro. Não haverá o que temer porque não haverá o que defender.


No escuro e quieto desse encontro, seu nome, novamente entoado como um cântico, falarei até a exaustão, até que nossos corpos quedem sôfregos, clamando por uma brisa, um frio na pele, um arrepio morno, uma canção.


Ah, não tente desviar o momento para ampliar o prazer e fazer com que o tempo não pare, porque ele vai parar, como a respiração que se segura antes do mergulho. O tempo vai deixar de existir para só haver uma comunhão. Vou me perder em você para descobrir os meus sentidos, vou me aquietar nos seus sonhos para acordar das minhas ilusões. Tudo muito intenso, tudo muito rápido, tudo de uma vez. E haverá um dia seguinte? Haverá um amanhecer? Enquanto for noite e houver silêncio, e enquanto soprar o vento de hálito leve e fresco, enquanto sua mão segurar na minha para não se perder na escuridão, ninguém sentirá falta de luz.
Que tudo passa, mas não passa já.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Mudar não é fácil


Não é fácil mudar. Talvez por esse motivo sempre houve ritos de passagem. Toda transição é uma forma de trauma. Quando se é criança, acredita-se no fantástico. Amigos invisíveis, sorte, mágica. O sobrenatural para umas pessoas continua na vida delas em forma de superstições, comer isso, vestir aquilo, usar seu anel da sorte, ler horóscopo. Será que acreditar em deus é uma forma de crença no sobrenatural? Será que um dia, ao acordar uma pessoa vai rir-se de ter acreditado a vida toda nesse deus?

Hoje não há mais tempo para ritos. As mudanças acontecem a cru. Não há lugar para mentiras boazinhas, doçuras fingidas, palavras lindas para acobertar um possível feio, duro, áspero. Ilusões. Mas se for pensar bem, tudo na vida é ilusão. A própria Terra é uma ilusão de solidez de um núcleo de ferro líquido e em chamas. Em resposta a essa ilusão, um terremoto é um trauma. Quantos terremotos se tem que passar para aprender que a vida é a dança e não o salão? 

Mas a criança que nasce acreditando naquilo que não vê é menos sábia do que o adulto que só mede seu sucesso por aquilo que realiza? Crescer, mudar de um para outro, trocar os dogmas, passar a ter as próprias chaves, não precisa ser traumático, decerto. E nem tudo que se sabe quando pequeno deve ser perdido quando crescido. A lição errada é sempre uma coisa que enfraquece, rebaixa. Aquilo que remete ao alto, à clareza e alegria – todo o verdadeiro conhecimento traz alegria – essa é a verdadeira lição da vida. Tornar-se um adulto que acredita na magia, na beleza vazia, inútil, de uma paisagem, de um lago plácido, de um rio que cresce em corredeira, essa uma boa razão para viver.

A luz do sol é quente, a luz da lua é fria, a luz que irradia uma pessoa inconsciente dela mesma, generosa, no entanto, é morna como um abraço apertado. Tem pessoas que são especialmente calorosas na sua luz a ponto de iluminar mais do que o seu próprio caminho. Esse é o ponto do crescer que pode levar alegria sem grandes gestos, heroicos gestos, gestos teatrais. Crescer sem drama. Hoje as mudanças não têm tempo de ritos porque dispensaram as emoções conflitantes. A luz de cada um, seja uma vela ou uma lanterna, seja um holofote ou um farol, está dentro de um armário cuja chave está no bolso. Quantos já sabem disso?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Eu não gostava de gatos


Eu não gostava de gatos. Preferia cães. Cães pulam, alegres, mostram vivazes a sua estima. Gatos são quietos, observadores, parecem ranzinzas. Então, um dia, me apaixonei por um filhote persa, vermelho. Por alguns anos viveu ele em minha casa, com seu mau-humor e estranhezas. E então sumiu num carnaval. Sem camisa amarela. Sem deixar rastro. E aí, era tarde, eu já me acabava apaixonada derradeiramente por gatos. Sofri muito sua falta, mas passou.

Depois, ganhei outro gato persa, agora bege, meigo, carinhoso e muito relacional. Persas parecem não perder nada com aqueles grandes olhos vermelhos, têm aquela cara de mau-humor, mas é só cara. Leon, o gato, era rei absoluto na minha casa. Talvez porque acreditasse ser um cachorro, passeava entre os cães no quintal sem se vexar. Os latidos não o amedrontavam tanto quanto os passos de uma pessoa. E era de sua natureza diferente gostar de água, brincar com água, sentar na água com aqueles longos pelos finos. Andava comigo pelo quintal, nos bosques de árvores floridas, nas ervas perfumadas do quintal, passando por um cão. Eu falava com ele, ele respondia.

Animais entendem? Sim, entendem, só não sei o quê. Eles serão gente um dia? Ou já foram? Talvez sim, talvez não. Sei que não foram criados para nosso prazer. Não existem para nos satisfazer a existência. Não vivem para que possamos usá-los. Eles têm vida própria. Têm vontade própria. E têm sua própria consciência das coisas e de nós. Enchem a casa de alegria, mas não é para isso sua vida. É porque não sofrem como nós por nada. Brincam com qualquer coisa que puder fazer barulho, correr ou cair por suas patas, sem pensar em amanhã, em consequência, em sentido. Procurar sentido na vida é o que nos move. E, em alguns momentos, essa ação nos tira um pouco a alegria. Toma lugar o pesar, o sentir, o querer o que não há, o que não temos.

Eu tinha um gato ou ele me tinha? Eu cuidava de sua comida, sua água, suas pedrinhas, deixava-o dormir no sofá, beber água do chuveiro – por que gatos gostam de água morna? – mantinha sua vida calma, como ele gostava. E talvez eu fosse seu animal de estimação. A deixar que subisse na cama e dormisse aconchegado. Ele me tratava com carinho. Silencioso e cúmplice, me defendia nas noites, com seu olhar atento. E aceitava com volúpia a sardinha que lhe ofertava.

Então, sem me falar nada numa surpresa, de repente, dormiu à tarde no quintal de que tanto gostava. Dormiu para sempre, como sempre, calmamente. Eu quis chorar. Quis não crer. Quis mais uma vez aquilo que não tinha mais. Depois passou. Sua carinha linda ficará comigo, ficarão comigo suas doces lembranças. E assim, posso voltar a falar com ele, silenciosamente. Me espere, Leon, que um dia eu chego por aí.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Spazio Pirandello


Spazio Pirandello – assim é se lhe parece. Passo na frente desse que foi o meu restaurante preferido e não existe mais. Será que a comida era realmente muito boa ou minha memória desse tempo é que me deixa com ar nostálgico e repleto de boa vontade? Não, era sempre muito divertido ir lá, encontrar amigos, conversar, beber e, claro, comer. Tinha uma vivacidade cultural.

Fui para São Paulo e acabei indo no bairro que já morei. Era um festival gastronômico. Onde está o Longchamp? Ia comer lasanha, tomar um bom chopp e desfrutar de uma sobremesa que nunca mais comi sequer parecido: compota de goiaba com catupiry. Parece trivial? Normalmente era bem tarde da noite, talvez madrugada e o seu copo não poderia esvaziar que era logo substituído por outro novinho e gelado, colarinho apropriado.

Desci a Frei Caneca a pé. Será que o prédio em que morei continua igual? Não, no lugar dele um shopping. Minhas madrugadas insones eram repletas de caminhadas por essas ruas. No Orvieto ia comer filé à fiorentina, com um molho de espinafre que me dá água na boca só de lembrar. Também não há mais. Mas a Bologna continua. Nesse tempo ainda comia carne e a melhor coxa creme de frango era na esquina da Augusta com Marques de Paranaguá. 

O tempo passa e as lembranças ficam intactas. Hoje a rua está decadente, suja, com portas pintadas e rabiscadas por alguém que não tem a menor noção do que é grafite de verdade. Eu antes era da cidade, me perdia nela e me achava. Sabia o lado da rua que devia andar. Cheguei a deixar as chaves do carro no contato numa daquelas noites. Sem querer, obviamente. Quando me dei conta, já estava sentada no restaurante esperando meu prato. Uma correria e nenhum problema: ninguém acreditou no que viu, imagino.

E no Bexiga? Cafés, comidas italianas, pães de padarias tradicionais, restaurantes onde o garçon a certa altura começava a cantar ópera – ou o que parecia ser – no meio do salão. Garçons que deveriam trabalhar na casa a vida toda, tão íntimos eram da comida, tão íntimos dos clientes. Naquela época eu pensava que tinha sangue italiano correndo nas minhas veias, tanto eu gostava de morar no bairro e frequentar aquelas cantinas.

Pão de linguiça, perna de cabrito, pizza com massa grossa, berinjela à parmegiana. Lasanha à bolonhesa, talharini à parisiense, penne al funghi secchi. Tudo isso povoou minhas fantasias mais famintas principalmente à noite. Fantasias prontamente realizadas bastando colocar-me à rua. Hoje tudo é muito melancólico. Lugares fechados, ruas sujas, nomes estranhos nas portas. Tudo muda e tudo passa, bem sei. O bom é que continuo sentido o gosto dos pratos que me faziam sair de casa. Mudei muito também, já não como carnes, mas mesmo assim, lembrar é fazer água na boca, é sentir o gosto de novo. Viver não precisa ser heroico quando se tem memória da vitalidade de um dia como todo dia. E, afinal, não faz tanto tempo assim, apenas o bairro mudou, não há mais os mesmos pratos. Até eu não moro mais lá. Somente uma teimosia reticente continua me levando para quando a felicidade era uma promessa do lado de fora casa, no movimento da rua, no passar dos faróis dos carros, enfim, num lugar em que o tempo passava correndo. Urbis. Definitivamente não sou mais um ser urbano.