Tenho que confessar que estou com medo. Medo de desconstruir meus conceitos de relacionamento a dois. De ter que mudar o que pensava e penso sobre o que é amor e amar. De questionar todas essas crenças já completamente à vontade na minha mente. Porque estou com medo de admitir que construí um mundo seguro sobre bases sólidas amparadas numa emoção chamada de amor incondicional e agora preciso reconhecer que tudo isso não era senão uma tentativa desesperada de me manter no controle. No controle das minhas emoções, da minha vida e das pessoas que me cercavam e bem me queriam.
É difícil admitir isso assim. Que embora declarasse um amor maior que tudo, o que mais queria era ser amada. Ser amada em tudo que eu fizesse por alguém. Ser reconhecida em cada gesto e cada palavra a cada momento. Mas, pior, estou com medo de um amor livre. De ser livre na expressão desse amor. De poder ir sem hora, mas também de deixar ir, de ficar sem, de me sentir só.
É simplificar demais a vida querer viver sob as próprias crenças, agora sei. É tudo muito mais fácil não dar um passo fora do esperado. Do que espero de mim, do que esperam. E por mais que seja segura de não me importar com o que os outros pensam de mim, tudo que penso sobre relacionamento inclui viver em comum, viver com, há sempre um “outro alguém”.
O que faço agora dessa súbita autonomia que me surge? O que penso de amor que não está presente? De amar alguém e deixá-lo. Deixá-lo ir, deixá-lo livre de meus cuidados, de minha atenção, de minha proteção, deixá-lo, enfim, solto por si. Que farei com minha súbita liberdade de não ter regras para viver com? De repente, ficou difícil aceitar que alguém que me ama não está me esperando para o café, ou para apagar a luz. Ganhei uma liberdade pela qual não conspirei, não lutei, ganhei e não tinha pedido.
No entanto, apesar de todo desconforto de ter perdido rotinas que engendrei e me enredaram, rotinas que me forneciam referenciais de quem sou, de quem tu és, o que se descortina pela janela repentinamente aberta é uma brisa leve e fresca, uma paisagem florida e descompromissada, descomplicada. É o medo do vôo ou da altura, o medo de perder o chão ou de ir ao chão, não sei, medo do amor que liberta, que desprende, que é luz, que é senão o fim de todo medo!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O que quero?
O que quero? Quero a vida que começa no chão, na terra suja por onde piso. Quero o mato que cresce desse chão se alimentando da luz. Quero a flor que nasce no mato, distraída e delicada, imperturbável ao vento e chuva, mas que desmorona com o calor do peito, da mão que toca. Quero a joaninha que caça na última pétala da flor que balança com seu peso antes que alce em vôo barulhento. Quero a sombra que o pinheiro faz em renda azul e verde escondendo o sol, quando há sol, mas quando chove, quero a gota que cai espaçada e cristalina, fria, batendo no meu rosto assim levantado e debutante.
Quero tudo. Quero estar com. Comigo, contigo, companheira. Quero a mão que espera o aperto. Quero o coração que bate com o sorriso que abre. Quero a sincronicidade de amar e ser amada, mesmo que não seja em condições normais de pressão e temperatura. O azul do céu é condicionante, o silêncio é condicionante. O mundo é cheio de condicionantes. Tudo que quero é relativo. Relativo ao tempo, ao humor do momento, ao estreito do abraço ou do abano da mão.
Quero mais ainda. Quero a felicidade declarada e não declarada. Aquela que se abre inesperadamente em instantes fugidios como o olhar de meia dúzia de cãezinhos de dentro da mala velha em que se encontram. A felicidade clandestina de reconhecer no vôo rápido um tucano de bico longo e verde. A felicidade silenciosa de se ver com o dever cumprido. A felicidade em si não, mas o que vem com ela na corrente sanguínea de prazer e evocação do belo, como se de repente a vida toda se tornasse apenas uma brisa leve de se levar, como se não houvesse mais dor ou tristeza possível de se viver, essa felicidade é que quero.
Quero tanto tanto que antes eu tinha até receio de reconhecer. Tinha medo mesmo de dizer. Mas agora estou dizendo. Quero a poesia perfeita, linda, linda, linda e tanto que faça chorar de emoção. Quero o olhar amanhecido de amor, porque se deitar de amor é mais fácil do que amanhecer amor. Quero a comida mais perfumada e saborosa que minhas mãos possam fazer para entreter minha razão que em geral é seca e estéril. Quero uma vida que se alarga com meu passar, e que seja livre das sombras que eu causo em me aproximar da luz. Quero a nota mais bela que minha voz consiga alcançar de uma vez só, um som que venha da alma, que venha de tão de dentro que eu possa ser reconhecida nela. Quero a quase dor que é o ser alegre num grito incontido.
Quero tudo isso para mim e para você quero não impedir que seja feliz, que seja quem você é, quem você queira ser. Quero não atrapalhar o seu caminho embora queira estar com você o caminho todo. Quero não causar dor em você na minha procura pelo meu querer. E se, em algum momento, meu querer seja diferente do seu querer, que possamos seguir ainda assim na companhia amorosa do querer bem.
Quero tudo. Quero estar com. Comigo, contigo, companheira. Quero a mão que espera o aperto. Quero o coração que bate com o sorriso que abre. Quero a sincronicidade de amar e ser amada, mesmo que não seja em condições normais de pressão e temperatura. O azul do céu é condicionante, o silêncio é condicionante. O mundo é cheio de condicionantes. Tudo que quero é relativo. Relativo ao tempo, ao humor do momento, ao estreito do abraço ou do abano da mão.
Quero mais ainda. Quero a felicidade declarada e não declarada. Aquela que se abre inesperadamente em instantes fugidios como o olhar de meia dúzia de cãezinhos de dentro da mala velha em que se encontram. A felicidade clandestina de reconhecer no vôo rápido um tucano de bico longo e verde. A felicidade silenciosa de se ver com o dever cumprido. A felicidade em si não, mas o que vem com ela na corrente sanguínea de prazer e evocação do belo, como se de repente a vida toda se tornasse apenas uma brisa leve de se levar, como se não houvesse mais dor ou tristeza possível de se viver, essa felicidade é que quero.
Quero tanto tanto que antes eu tinha até receio de reconhecer. Tinha medo mesmo de dizer. Mas agora estou dizendo. Quero a poesia perfeita, linda, linda, linda e tanto que faça chorar de emoção. Quero o olhar amanhecido de amor, porque se deitar de amor é mais fácil do que amanhecer amor. Quero a comida mais perfumada e saborosa que minhas mãos possam fazer para entreter minha razão que em geral é seca e estéril. Quero uma vida que se alarga com meu passar, e que seja livre das sombras que eu causo em me aproximar da luz. Quero a nota mais bela que minha voz consiga alcançar de uma vez só, um som que venha da alma, que venha de tão de dentro que eu possa ser reconhecida nela. Quero a quase dor que é o ser alegre num grito incontido.
Quero tudo isso para mim e para você quero não impedir que seja feliz, que seja quem você é, quem você queira ser. Quero não atrapalhar o seu caminho embora queira estar com você o caminho todo. Quero não causar dor em você na minha procura pelo meu querer. E se, em algum momento, meu querer seja diferente do seu querer, que possamos seguir ainda assim na companhia amorosa do querer bem.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Minha casa tem quintal
Minha casa tem quintal onde passeia o colibri. Onde passeiam as abelhas e passeia o meu olhar. Minha casa tem cachorros que pulam em cima da gente, pulam em cima de todos, e lambem e latem desgovernados. Que amo e me amam de uma forma impressionante. E minha casa tem 2 gatos que dormem preguiçosos e miam uma conversa sem fim se desafiados.
O quintal da minha casa tem um tanto de plantas que fui eu que plantei. Elas me dão alegria e perfume, beleza e sabor, elas dão ao ar uma frescura de ar assim novinho, recém-climatizado, leve e solto.
Perto do quintal e um pouco além tem muita água que passa correndo sem nem me ver. Correndo em chiadeira sem fim, dia e noite, dia e noite. Eu quero dizer para todo mundo que sou feliz, quero dizer mas não consigo. Não preciso. Na minha voz dá para reconhecer, no meu olhar sorridente dá para ver.
E eu trabalho logo ali entre os perfumes das plantas que acabei de colher. Ouvindo os pássaros em seus cantos e encantos sonoros. Eu trabalho olhando para tudo isso e sabendo que fui eu que fiz. Onde cheguei um pouco sem saber para onde ia, mas depois sabendo e me dirigindo.
Cheguei na janela de vidro que dá para o jardim interno. É madeira e barro porque assim me esquenta. E no meio do jardim que há, entre frutas vermelhas e flores amarelas, flores azuis, flores roxas, está meu atelier. Tem cheiro de comida porque as panelas cozinham os perfumes no fogão a lenha. E porque o apetite que sacia leva consigo o prazer de haver realizado. Comer é a metáfora da vida. Quero fazer poemas de brócolis e beterrabas vermelhas e doces. Beterrabas cozidas no suco da uva que alguém me ensinou e ainda não fiz mas vou fazer.
Eu já estou no futuro. Ou o futuro já é hoje. Quando reconheço que a música de fundo é meu coração batendo, quando ouço forte o espalmar dos cílios se encontrando num piscar de olhos. Quando paro para ouvir passar as formigas cortadeiras em ruidosa trilha. Quando sincronizo meu relógio interior como a sinfonia do tempo. Eu que não fiz piano porque não gostava de solfejo, agora sou obrigada e a reconhecer as semi-cheias das mãos que se encontram.
Eu me lancei na vida para ir atrás de um sentido. Muito sentido passou debaixo da ponte sem que eu mordesse nenhum anzol até me debater nas margens de barrancos que escorregavam e me devolviam à água. Por que tem que doer, meu deus. E a pergunta não ficou sem resposta. Agora que a janela me faz moldura à cerejeira do quintal, olho para fora e vejo que o mundo voltou a girar sem me deixar tonta, parece que encontrei meu lugar no lugar em que estava. E só precisou que eu declarasse o meu querer.
O quintal da minha casa tem um tanto de plantas que fui eu que plantei. Elas me dão alegria e perfume, beleza e sabor, elas dão ao ar uma frescura de ar assim novinho, recém-climatizado, leve e solto.
Perto do quintal e um pouco além tem muita água que passa correndo sem nem me ver. Correndo em chiadeira sem fim, dia e noite, dia e noite. Eu quero dizer para todo mundo que sou feliz, quero dizer mas não consigo. Não preciso. Na minha voz dá para reconhecer, no meu olhar sorridente dá para ver.
E eu trabalho logo ali entre os perfumes das plantas que acabei de colher. Ouvindo os pássaros em seus cantos e encantos sonoros. Eu trabalho olhando para tudo isso e sabendo que fui eu que fiz. Onde cheguei um pouco sem saber para onde ia, mas depois sabendo e me dirigindo.
Cheguei na janela de vidro que dá para o jardim interno. É madeira e barro porque assim me esquenta. E no meio do jardim que há, entre frutas vermelhas e flores amarelas, flores azuis, flores roxas, está meu atelier. Tem cheiro de comida porque as panelas cozinham os perfumes no fogão a lenha. E porque o apetite que sacia leva consigo o prazer de haver realizado. Comer é a metáfora da vida. Quero fazer poemas de brócolis e beterrabas vermelhas e doces. Beterrabas cozidas no suco da uva que alguém me ensinou e ainda não fiz mas vou fazer.
Eu já estou no futuro. Ou o futuro já é hoje. Quando reconheço que a música de fundo é meu coração batendo, quando ouço forte o espalmar dos cílios se encontrando num piscar de olhos. Quando paro para ouvir passar as formigas cortadeiras em ruidosa trilha. Quando sincronizo meu relógio interior como a sinfonia do tempo. Eu que não fiz piano porque não gostava de solfejo, agora sou obrigada e a reconhecer as semi-cheias das mãos que se encontram.
Eu me lancei na vida para ir atrás de um sentido. Muito sentido passou debaixo da ponte sem que eu mordesse nenhum anzol até me debater nas margens de barrancos que escorregavam e me devolviam à água. Por que tem que doer, meu deus. E a pergunta não ficou sem resposta. Agora que a janela me faz moldura à cerejeira do quintal, olho para fora e vejo que o mundo voltou a girar sem me deixar tonta, parece que encontrei meu lugar no lugar em que estava. E só precisou que eu declarasse o meu querer.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Não é fácil pensar
Não é fácil pensar. Sobretudo, não é fácil pensar focado. Metas. Aprendi que muito do meu desejo se perdeu por aí, entre travesseiros mal dormidos, ou na desordem do dia. Muito dele se derramou inútil. Não sei nem dizer o que queria e o que não fiz do que queria. Não escrevi. Não me comprometi. Não empenhei nenhum risco em nenhum momento. Taí. Que sucesso pode vir de uma tal empreita?
Somente o sucesso de descer a ladeira. De ser visto de dia. De ganhar de graça sem merecer. Até a flor que se dá em perfume e beleza tem um propósito. Na natureza tudo tem uma estratégia. A inteligência está perfeita e reconhecível em cada seixo que rola solto na corredeira. Qual o meu propósito? Qual a minha meta? Para onde vou?
Caminhar a esmo é fácil também. É fácil seguir seguindo, deixando a vida me levar. Não tem escolhas importantes que me tirem o sono porque têm sentido, porque são impactantes, porque são únicas. Uma escolha é única porque não tem volta. A cada virada que dou no caminho é um passo para um lado, é um tempo que não volta.
Sonhar é preciso. E se tiver clareza, nitidez e ainda por cima for escrito, então é um sonho realizável. É um sonho com data marcada. Bem sei. Olho para frente e para cima. O que vejo? Minha vida lá na frente linda! Onde estou sentada? Com quem estou falando? Estou ali num futuro visível, palpável. O que quero para minha vida? Lá está: sentada e feliz na beira de um rio de corredeira que é o rio que passa pela minha aldeia. São dez anos e é como se fosse agora. Real. Estou tranqüila porque a vida está em ordem. E lá, nesse futuro sorridente, sentada, olho para frente e me vejo. Estou me vendo num futuro mais que perfeito. Andando na minha terra entre as árvores que plantei.
Devolvo para a terra o que a terra me deu. Muitas plantas, o perfume das especiarias entrelaça-se no vento. Ando entre elas e gravo seu aroma. Devolvo para a gente o que a gente me deu. Dou o que sei em troca de ver crescer um futuro no olhar de quem me vê e se vê num longe real e palpável. Acreditar é ver nascer a fruta no pé que foi cuidado. Empenhar-se é acreditar não no acaso, na sorte ou azar. Mas na força que seu braço tem, na destreza que seu olhar tem, e na precisão de um pensamento cristalino.
Vou dizer que o que quero para minha vida é um sentido. Não há sentido em trabalhar sem ver nascer o fruto. Não há sentido em haver frutos se não puderem ser colhidos. Não há sentido na mordida na fruta que não seja doce. Porque o doce é a razão da fruta. Como a alegria é a razão da vida. Não digo mais que as coisas estão difíceis. Sou eu que não me empenhei ainda em desvelar sua ordem, sou eu que não me esforcei em desfazer seu nó, sou eu que não enxerguei a luz por trás das pálpebras fechadas. O que quero, o que quero, o que quero. Estou fazendo silêncio e atenta para ouvir o que bate meu coração para que eu escreva na pedra para não esquecer até chegar lá. E depois que chegar lá, não esquecerei também de me brindar. Porque eu sou a razão do meu sucesso.
Somente o sucesso de descer a ladeira. De ser visto de dia. De ganhar de graça sem merecer. Até a flor que se dá em perfume e beleza tem um propósito. Na natureza tudo tem uma estratégia. A inteligência está perfeita e reconhecível em cada seixo que rola solto na corredeira. Qual o meu propósito? Qual a minha meta? Para onde vou?
Caminhar a esmo é fácil também. É fácil seguir seguindo, deixando a vida me levar. Não tem escolhas importantes que me tirem o sono porque têm sentido, porque são impactantes, porque são únicas. Uma escolha é única porque não tem volta. A cada virada que dou no caminho é um passo para um lado, é um tempo que não volta.
Sonhar é preciso. E se tiver clareza, nitidez e ainda por cima for escrito, então é um sonho realizável. É um sonho com data marcada. Bem sei. Olho para frente e para cima. O que vejo? Minha vida lá na frente linda! Onde estou sentada? Com quem estou falando? Estou ali num futuro visível, palpável. O que quero para minha vida? Lá está: sentada e feliz na beira de um rio de corredeira que é o rio que passa pela minha aldeia. São dez anos e é como se fosse agora. Real. Estou tranqüila porque a vida está em ordem. E lá, nesse futuro sorridente, sentada, olho para frente e me vejo. Estou me vendo num futuro mais que perfeito. Andando na minha terra entre as árvores que plantei.
Devolvo para a terra o que a terra me deu. Muitas plantas, o perfume das especiarias entrelaça-se no vento. Ando entre elas e gravo seu aroma. Devolvo para a gente o que a gente me deu. Dou o que sei em troca de ver crescer um futuro no olhar de quem me vê e se vê num longe real e palpável. Acreditar é ver nascer a fruta no pé que foi cuidado. Empenhar-se é acreditar não no acaso, na sorte ou azar. Mas na força que seu braço tem, na destreza que seu olhar tem, e na precisão de um pensamento cristalino.
Vou dizer que o que quero para minha vida é um sentido. Não há sentido em trabalhar sem ver nascer o fruto. Não há sentido em haver frutos se não puderem ser colhidos. Não há sentido na mordida na fruta que não seja doce. Porque o doce é a razão da fruta. Como a alegria é a razão da vida. Não digo mais que as coisas estão difíceis. Sou eu que não me empenhei ainda em desvelar sua ordem, sou eu que não me esforcei em desfazer seu nó, sou eu que não enxerguei a luz por trás das pálpebras fechadas. O que quero, o que quero, o que quero. Estou fazendo silêncio e atenta para ouvir o que bate meu coração para que eu escreva na pedra para não esquecer até chegar lá. E depois que chegar lá, não esquecerei também de me brindar. Porque eu sou a razão do meu sucesso.
domingo, 14 de novembro de 2010
Chovia
Chovia. Entrei no quarto escuro da minha memória esquecida e juntei os papéis velhos, guardados em caixas empoeiradas. Juntei tudo para fazer uma fogueira, mas chovia. Então, coloquei tudo no forno à lenha para cozinhar demoradamente, esfumaçadamente, esse passado grudento, pegajoso, que queria esquecer, mas não dá. O fogo transforma tudo, ao menos em cinza. Depois fiquei olhando pegar fogo e esquentar o tijolo. Fiquei vendo tudo acabar em poeira como se fosse uma lembrança distante.
Quando só restava fumaça, tirei toda a roupa do corpo e deixei a água quente escorrer por cima, reconfortante, num banho inteiro. Não tenho dó do que vivi. Nem de mim por ter vivido ora no paraíso, ora no inferno das minhas emoções desencontradas. Era eu. Agora, sentada aqui deixo o vento passar mais um pouco pela minha pele, levando o que restou nas entranhas de um tempo que passou. Ainda bem que fiquei. Fiquei para ser testemunha da vida. E a vida é incomparável.
Entro em casa para colocar fogo no fogão. O cheiro da fumaça me anima a cozinhar. Ainda tenho muita coisa para arrumar. Tudo está desorganizado, começado, em suspenso. Preciso tirar ainda muita teia de aranha dos meus ombros. Enquanto isso, vou atiçar o fogo na lenha. Já não me esforço em entender. Um dia isso virá. Virá como o ar que respiro, como o sangue que retorna ao coração, como o olhar que brilha só de pensar.
Penso que nada faria tanto por me lapidar como o que vivi. Nada também arranharia tanto. Nada tão bruto, nada tão intenso. Mas isso me faz lembrar de que minha adolescência tinha essa busca pela intensidade. A plenitude não era uma meta. A intensidade sim. Eu queria o vigor de um Beethoven, e não a beleza de um Mozart. A gente pede, a vida dá.
O fogo faz da brasa um cristal iluminado e transparente. Parece mole. Parece jóia. Vou jogar no fogo um pedido para o futuro, ele que queimou o passado até virar um misto de pó preto e fumaça, talvez transforme o meu pedido em realidade. Quero a inteireza da paz. Quero um coração mole que não derreta sem sentido. Quero uma pele que ceda ao toque e permaneça firme no abraço. Quero a permanência, e sim, finalmente, a plenitude.
Quando só restava fumaça, tirei toda a roupa do corpo e deixei a água quente escorrer por cima, reconfortante, num banho inteiro. Não tenho dó do que vivi. Nem de mim por ter vivido ora no paraíso, ora no inferno das minhas emoções desencontradas. Era eu. Agora, sentada aqui deixo o vento passar mais um pouco pela minha pele, levando o que restou nas entranhas de um tempo que passou. Ainda bem que fiquei. Fiquei para ser testemunha da vida. E a vida é incomparável.
Entro em casa para colocar fogo no fogão. O cheiro da fumaça me anima a cozinhar. Ainda tenho muita coisa para arrumar. Tudo está desorganizado, começado, em suspenso. Preciso tirar ainda muita teia de aranha dos meus ombros. Enquanto isso, vou atiçar o fogo na lenha. Já não me esforço em entender. Um dia isso virá. Virá como o ar que respiro, como o sangue que retorna ao coração, como o olhar que brilha só de pensar.
Penso que nada faria tanto por me lapidar como o que vivi. Nada também arranharia tanto. Nada tão bruto, nada tão intenso. Mas isso me faz lembrar de que minha adolescência tinha essa busca pela intensidade. A plenitude não era uma meta. A intensidade sim. Eu queria o vigor de um Beethoven, e não a beleza de um Mozart. A gente pede, a vida dá.
O fogo faz da brasa um cristal iluminado e transparente. Parece mole. Parece jóia. Vou jogar no fogo um pedido para o futuro, ele que queimou o passado até virar um misto de pó preto e fumaça, talvez transforme o meu pedido em realidade. Quero a inteireza da paz. Quero um coração mole que não derreta sem sentido. Quero uma pele que ceda ao toque e permaneça firme no abraço. Quero a permanência, e sim, finalmente, a plenitude.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Estou preste a recuperar a paz
Sinto que estou preste a recuperar a paz. Eu, que vim de longe em busca da simplicidade, agora estou na porta de encontrar também a calma. Por que me distanciei tanto do meu objetivo? E por que demorei tanto para me dar conta? Um dia ainda terei as respostas. Por ora basta que eu levante a mão e toque a maçaneta de uma nova vida. Uma nova era. Aquela que acreditei ser possível, ser tangível, ser verdadeira e para a qual dei as costas imprudentemente, há quanto tempo?
Não tem nada que se compare com isso. Talvez um riacho correndo transparente deixando um rastro cortado no silêncio. Um som de espuma batendo na pedra. Batendo e passando. Não, não tem nada que possa pagar por esse silêncio no peito que é a calma. Pode ventar agora, pode chover sem parar. E eu já não saí de casa porque chovia ou porque ia chover. Eu já fui infinitamente triste.
Não sei o que é a tristeza. Sei que não é normal. Não é normal olhar o dia que nasce com sol aberto no fundo azul por trás da renda da copa das árvores, pássaros cantando descontraidamente, e não ter vontade de sair da cama. Não ter vontade de sair de casa, não ter vontade. Não é normal ficar olhando para o tempo parado vagando um coração que não quer nada. Por que fiz isso da minha vida e por que foi tão difícil me convencer de que precisava fazer alguma coisa, eu não sei também.
Comecei mudar de fora para dentro na expectativa de que um dia conseguiria tocar profundamente minha emoção. Mudei de emprego, mudei de casa, mudei de cidade, mudei de vida, mudei meu olhar para a vida. Fui pintando um quadro bom de ver e bom de viver. E continuava um coração triste debaixo de uma pele brilhante. Como a gente pode se enganar quando quer! Cheguei a vestir a fantasia de estar realizando meu sonho quando só estava tirando a pedra de dentro do sapato que era bonito, elegante, mas não era para mim.
Posso ser feliz hoje apenas colhendo cogumelos selvagens. Posso ser muito feliz apenas aceitando as coisas que me sucedem. Levou tempo para poder respirar sem dificuldade o ar frio da montanha. Lá fora os pessegueiros estão até arqueados do peso das frutas. As amoreiras estão em flor, lindas, lindas. E meu coentro que o menino havia carpido e eu pensava que havia perdido renasceu perfumado novamente. O lugar-comum da primavera, que posso fazer? Ela é assim mesmo: um remédio até para os nervos. Para os nervos escangalhados da dor que a vida faz de não haver compreensão. Fico feliz de poder compreender agora.
Mas ainda quero muito. Eis outro mistério: por que o desejo e por que o desejo em mim deseja tão fortemente? Antes acreditava que era para eu me corrigir que eu errava. Mas não faz sentido. Não faz sentido dar um castigo para aquilo que se fez sem consciência. A consciência é o perdão de tudo, e sem ela não pode haver crime. O único crime é a ignorância. E querer é ter a vontade recuperada. Eu achava que não desejava mais porque estava deprimida. Mas eu estava deprimida porque não desejava mais. Foi mudar o cenário, mudar os atores, mudar o figurino e voltei a desejar viver como não sabia mais que ainda sabia.
O perfume da flor, o colorido do pássaro, a janela aberta, sem vidros para proteger, a chuva caindo sem pressa, o horário de verão implantado no horizonte que se alonga, tudo é um bom motivo para eu desejar de dentro da alma que brilha pelos olhos a vida que havia deixado pra trás. E estou prestes a me reencontrar, a me identificar claramente, os pés no chão e o coração alado, livre de amarras, do peso de uma âncora que teimava em me levar para o fundo. Agora, estou preste a voltar a voar.
Não tem nada que se compare com isso. Talvez um riacho correndo transparente deixando um rastro cortado no silêncio. Um som de espuma batendo na pedra. Batendo e passando. Não, não tem nada que possa pagar por esse silêncio no peito que é a calma. Pode ventar agora, pode chover sem parar. E eu já não saí de casa porque chovia ou porque ia chover. Eu já fui infinitamente triste.
Não sei o que é a tristeza. Sei que não é normal. Não é normal olhar o dia que nasce com sol aberto no fundo azul por trás da renda da copa das árvores, pássaros cantando descontraidamente, e não ter vontade de sair da cama. Não ter vontade de sair de casa, não ter vontade. Não é normal ficar olhando para o tempo parado vagando um coração que não quer nada. Por que fiz isso da minha vida e por que foi tão difícil me convencer de que precisava fazer alguma coisa, eu não sei também.
Comecei mudar de fora para dentro na expectativa de que um dia conseguiria tocar profundamente minha emoção. Mudei de emprego, mudei de casa, mudei de cidade, mudei de vida, mudei meu olhar para a vida. Fui pintando um quadro bom de ver e bom de viver. E continuava um coração triste debaixo de uma pele brilhante. Como a gente pode se enganar quando quer! Cheguei a vestir a fantasia de estar realizando meu sonho quando só estava tirando a pedra de dentro do sapato que era bonito, elegante, mas não era para mim.
Posso ser feliz hoje apenas colhendo cogumelos selvagens. Posso ser muito feliz apenas aceitando as coisas que me sucedem. Levou tempo para poder respirar sem dificuldade o ar frio da montanha. Lá fora os pessegueiros estão até arqueados do peso das frutas. As amoreiras estão em flor, lindas, lindas. E meu coentro que o menino havia carpido e eu pensava que havia perdido renasceu perfumado novamente. O lugar-comum da primavera, que posso fazer? Ela é assim mesmo: um remédio até para os nervos. Para os nervos escangalhados da dor que a vida faz de não haver compreensão. Fico feliz de poder compreender agora.
Mas ainda quero muito. Eis outro mistério: por que o desejo e por que o desejo em mim deseja tão fortemente? Antes acreditava que era para eu me corrigir que eu errava. Mas não faz sentido. Não faz sentido dar um castigo para aquilo que se fez sem consciência. A consciência é o perdão de tudo, e sem ela não pode haver crime. O único crime é a ignorância. E querer é ter a vontade recuperada. Eu achava que não desejava mais porque estava deprimida. Mas eu estava deprimida porque não desejava mais. Foi mudar o cenário, mudar os atores, mudar o figurino e voltei a desejar viver como não sabia mais que ainda sabia.
O perfume da flor, o colorido do pássaro, a janela aberta, sem vidros para proteger, a chuva caindo sem pressa, o horário de verão implantado no horizonte que se alonga, tudo é um bom motivo para eu desejar de dentro da alma que brilha pelos olhos a vida que havia deixado pra trás. E estou prestes a me reencontrar, a me identificar claramente, os pés no chão e o coração alado, livre de amarras, do peso de uma âncora que teimava em me levar para o fundo. Agora, estou preste a voltar a voar.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
O que fortalece uma união
Fico pensando que o que fortalece uma união, o que faz dela ser ou não importante para a vida de cada pessoa envolvida nela, é sua capacidade de passar pelas coisas boas e enfrentar problemas. Quando tudo é bom um problema é um grande problema. Porque não é fácil abandonar suas violetas na janela para cuidar de uma roseira doente, mas é preciso. É preciso ver a doença como a margem de um rio: retém a água e a corredeira, é de pedra ou areia, mas faz um canal para que ele siga seu caminho. As dificuldades não são pedras no caminho. São pontos de parada na caminhada. São momentos de reabastecer, de se reorganizar, de se refazer.
Não obstante, adversidades para mim são tão impactantes que me fazem perder o apetite. Acho que deve ter uma lição para aprender, acho que estou fazendo alguma coisa errada. Acho sempre que tenho que me curvar para essas dores. Então, uma parte de mim, indomável, selvagem como um tigre assustado, reage quase à loucura a essa atitude. Quase me parto em duas, me fragmento, duvido de mim. E, de joelhos ainda, não rezo, fico olhando para meu umbigo rompido de um parto que queria ter interrompido. Que difícil ainda é viver.
Custo a acreditar que exista uma relação humana que esteja isenta de conflito. Era tudo que eu queria, mas não consegui ainda ver nenhuma que fosse ininterruptamente tranqüila. E se puser o tempo como ingrediente, fica então mais distante. Harmonia e tranqüilidade são coisas diferentes. Não vejo falta de harmonia em relações com conflitos, com momentos tensos, com experiências de viés. Porque acho natural que haja conflito, discordância, distensão, em relações realmente abertas e intensas.
Harmonia é querer a mesma coisa mesmo quando se pensa que o como seja diferente. É estar de bem quando passou o dia todo sem comer, trabalhando muito e resolvendo uma série de pendências, muito stress e frustrações, junto com boas notícias e ovos quebrados por descuido ou força demais, e poder sentar no meio de tudo isso e, ao olhar para o outro, que também passou por tudo isso, comentar que a lua está especialmente linda essa noite. Não é fácil reconhecer o pessegueiro florido, intensamente florido, no fundo da noite quando chega em casa. Mas é isso que faz a diferença entre ficar na rua e voltar para casa.
Sei disso. Fico sempre chocada com minha falta de habilidade em viver coisas em que acredito. Falo como se fosse a primeira a ser a mais harmônica na face da terra. E, no entanto, minha natureza ígnea rompe o peito a cada tapa na face, tentando desesperadamente manter o controle sobre tudo, sobre a dor.
Apesar disso, sei também que não sou bipolar ou louca por todas minhas contradições. A vida mesma é tão contraditória. Todo esforço para a vida é um passo para a morte. A vida pede oxigênio e o oxigênio oxida, destrói. Como o fogo que consome o ar para ser labareda. Imagine, então, a convivência com outra pessoa, um outro universo complexo e paradoxal como você, com opiniões próprias, com experiências próprias e que quer seu lugar ao sol tanto quanto você. Não me refiro à atitude de competição, de conquista. Pode ser dentro da cooperação, da parceria sincera, da vontade de estar junto sempre e para o resto da vida, de querer mostrar as coisas boas que aprendeu e as coisas erradas que consertou ou aprendeu também. Mesmo dentro de toda essa harmonia – não será harmonia o querer compartilhar sinceramente o bem e o mal que fez? – a complexidade de cada um encostada na complexidade do outro é como o encontro de duas estrelas, de duas supernovas, de duas galáxias. É a contradição de um muito perto da contradição do outro. É lindo quando o encontro reúne pontos fortes de cada um. Mas é um estrondo quando reúne pontos fragilizados, escuros, desconhecidos. O tempo promove todos esses encontros, os dois tipos, ou mais se houver e puder ser. O tempo potencializa as possibilidades. E o tempo não é senão a vida que passa.
Não obstante, adversidades para mim são tão impactantes que me fazem perder o apetite. Acho que deve ter uma lição para aprender, acho que estou fazendo alguma coisa errada. Acho sempre que tenho que me curvar para essas dores. Então, uma parte de mim, indomável, selvagem como um tigre assustado, reage quase à loucura a essa atitude. Quase me parto em duas, me fragmento, duvido de mim. E, de joelhos ainda, não rezo, fico olhando para meu umbigo rompido de um parto que queria ter interrompido. Que difícil ainda é viver.
Custo a acreditar que exista uma relação humana que esteja isenta de conflito. Era tudo que eu queria, mas não consegui ainda ver nenhuma que fosse ininterruptamente tranqüila. E se puser o tempo como ingrediente, fica então mais distante. Harmonia e tranqüilidade são coisas diferentes. Não vejo falta de harmonia em relações com conflitos, com momentos tensos, com experiências de viés. Porque acho natural que haja conflito, discordância, distensão, em relações realmente abertas e intensas.
Harmonia é querer a mesma coisa mesmo quando se pensa que o como seja diferente. É estar de bem quando passou o dia todo sem comer, trabalhando muito e resolvendo uma série de pendências, muito stress e frustrações, junto com boas notícias e ovos quebrados por descuido ou força demais, e poder sentar no meio de tudo isso e, ao olhar para o outro, que também passou por tudo isso, comentar que a lua está especialmente linda essa noite. Não é fácil reconhecer o pessegueiro florido, intensamente florido, no fundo da noite quando chega em casa. Mas é isso que faz a diferença entre ficar na rua e voltar para casa.
Sei disso. Fico sempre chocada com minha falta de habilidade em viver coisas em que acredito. Falo como se fosse a primeira a ser a mais harmônica na face da terra. E, no entanto, minha natureza ígnea rompe o peito a cada tapa na face, tentando desesperadamente manter o controle sobre tudo, sobre a dor.
Apesar disso, sei também que não sou bipolar ou louca por todas minhas contradições. A vida mesma é tão contraditória. Todo esforço para a vida é um passo para a morte. A vida pede oxigênio e o oxigênio oxida, destrói. Como o fogo que consome o ar para ser labareda. Imagine, então, a convivência com outra pessoa, um outro universo complexo e paradoxal como você, com opiniões próprias, com experiências próprias e que quer seu lugar ao sol tanto quanto você. Não me refiro à atitude de competição, de conquista. Pode ser dentro da cooperação, da parceria sincera, da vontade de estar junto sempre e para o resto da vida, de querer mostrar as coisas boas que aprendeu e as coisas erradas que consertou ou aprendeu também. Mesmo dentro de toda essa harmonia – não será harmonia o querer compartilhar sinceramente o bem e o mal que fez? – a complexidade de cada um encostada na complexidade do outro é como o encontro de duas estrelas, de duas supernovas, de duas galáxias. É a contradição de um muito perto da contradição do outro. É lindo quando o encontro reúne pontos fortes de cada um. Mas é um estrondo quando reúne pontos fragilizados, escuros, desconhecidos. O tempo promove todos esses encontros, os dois tipos, ou mais se houver e puder ser. O tempo potencializa as possibilidades. E o tempo não é senão a vida que passa.
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